Uma tonelada de amor: comunidade dobra doações e alimenta animais carentes

Campanha "Ração Solidária", do Comitê Jovem Primato, entrega mil quilos de ração às ONGs Protetoras Meraki e Todos Por Um Lar Toledo

Nesta segunda-feira (17), uma tonelada de ração chegou às mãos de quem cuida, todos os dias, de animais que não têm mais ninguém. O alimento foi arrecadado no último sábado (15), em pontos de coleta instalados nas unidades dos Supermercados Primato, em Toledo (PR), e representa o tamanho de uma mobilização que começou pequena e, com o tempo, ganhou o coração da comunidade.

A entrega marcou o desfecho da segunda edição da campanha "Ração Solidária", iniciativa organizada pelo Comitê Jovem Primato que, depois de sua estreia no ano passado, conquistou espaço fixo no calendário anual do grupo. E os números contam parte dessa história: em 2025, a arrecadação somou cerca de 500 quilos. Neste ano, o volume dobrou.

"Foi muito gratificante a nossa ação solidária, o envolvimento de todos os jovens, a interação com as pessoas, o carinho que elas têm pelos animais e, principalmente, essa solidariedade das pessoas contribuindo com as doações", conta Adriel Rossetto, coordenador do Comitê Jovem Primato. "Fiquei muito feliz pelo fato de termos conseguido dobrar as arrecadações. Ano passado conseguimos cerca de 500 quilos de ração e esse ano chegamos a mil quilos de ração para os pets."

Para Adriel, o resultado vai além dos quilos pesados nas balanças. "Toda essa ação traduz um pouco do que o cooperativismo significa: contribuir com a sociedade, com o meio em que estamos, seja fazendo o bem para as pessoas ou para os animaizinhos", resume.

Quando a ração alimenta mais do que os animais

Do outro lado dessa corrente estão as ONGs Protetoras Meraki e Todos Por Um Lar Toledo, que recebem os donativos e sabem, mais do que ninguém, o alcance real de cada saco de ração doado.

Maria de Lourdes Barbosa, representante das Protetoras Meraki, destaca que o impacto da campanha ultrapassa os limites dos abrigos. "Essa ação da Primato, que mais um ano abençoa muitos bichos, é de extrema importância. Não ajudamos somente aqueles que estão nos lares temporários das protetoras, mas também ajudamos outras pessoas que precisam. Há pessoas passando necessidade e, com isso, seus bichinhos também sofrem", explica.

Hoje, o abrigo mantido pelas Protetoras Meraki cuida de 40 animais, além daqueles que estão sob os cuidados de protetoras voluntárias em suas próprias casas. "É difícil calcular até onde vai chegar, porque onde conseguirmos distribuir, nós vamos distribuir. Eu só posso agradecer", diz Maria de Lourdes, que aproveita o momento para reforçar um chamado à comunidade: quem quiser colaborar pode procurar a ONG pelo Facebook ou Instagram, no perfil @protetorasmeraki, seja com voluntariado, doações em dinheiro, ração ou, principalmente, adoção.

Mas é sobre outro tema que sua fala ganha mais força. "O mais importante é a conscientização da população. Que essas pessoas que abandonam coloquem a mão na consciência: abandonar um animal é como matá-lo. Eles são como crianças inocentes, não sabem se defender, e vão para a rua para morrer, para serem atropelados, para causar acidentes, enfim, para sofrer. Os vilões somos nós, seres humanos. Peço por misericórdia, que as pessoas, antes de abandonar o seu bichinho, ponham a mão na consciência e não façam isso."

O trabalho que nunca para

Na Todos Por Um Lar Toledo, a rotina é igualmente intensa. A ONG hoje mantém aproximadamente 150 animais em lares temporários, sustentados por uma rede de voluntários que abre a própria casa — e dedica o próprio tempo — para cuidar de bichos em recuperação.

"Essa ação é muito importante para a Todos Por Um Lar, porque nos ajuda a continuar um trabalho que acontece todos os dias. São muitos animais que precisam de ração, e parte dessas doações também é destinada às pessoas que nos ajudam diretamente, oferecendo lar temporário ou cuidando de animais que precisam de uma atenção especial por estarem debilitados", conta Eliana Silva da Silva, representante da entidade.

Segundo ela, esse gesto de acolhimento raramente é visto de perto por quem está de fora. "Muitas vezes, essas pessoas disponibilizam seu tempo e sua própria casa para acolher um animal até que ele esteja recuperado ou encontre uma família. Por isso, receber essas doações faz uma diferença enorme e nos permite continuar ajudando cada vez mais animais."

Eliana também faz questão de esclarecer um ponto que considera essencial sobre a forma como a entidade atua. "É importante explicar que a ONG não possui uma equipe de recolhimento que consegue atender todos os chamados. Os resgates e acolhimentos são realizados conforme cada situação, levando em consideração a urgência do caso e, principalmente, a disponibilidade de lares temporários e de recursos para receber aquele animal."

Por isso, quando alguém encontra um animal abandonado, a ONG costuma contar com a colaboração de quem fez o contato, seja oferecendo um espaço temporário, seja ajudando na alimentação enquanto uma solução definitiva é construída.

"A Todos Por Um Lar é formada por voluntários e depende da colaboração da comunidade. Por isso, cada pessoa que se dispõe a ajudar também passa a fazer parte dessa corrente", afirma Eliana, que reforça o pedido de ajuda contínua — com doações de ração, contribuições para tratamentos veterinários e medicamentos ou divulgação dos animais disponíveis para adoção. Quem quiser ajudar pode acessar o perfil @todosporumlartoledo no Instagram e Facebook ou enviar mensagem direta pela rede.

Uma corrente que se repete todo ano

A "Ração Solidária" desenha um caminho simples: quem tem um pouco, divide; quem cuida de muitos, precisa reforço para seguir cuidando. No meio desse trajeto, ficou uma tonelada de ração e, junto dela, dezenas de famílias, protetoras e voluntários que, de um jeito ou de outro, também sentiram o impacto dessa história.

 

 

 

 

 

Por - Assessoria

Eleição: homem, branco e empresário é perfil majoritário de candidatos

Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registrou 20.530 pedidos de registro de candidatura para as eleições deste ano – 8.732 a menos do que no pleito de 2022. Os dados foram atualizados na manhã desta terça-feira (18).

Do total de pedidos de registro de candidatura, 13.374 ou 65% são de pessoas do sexo masculino e 7.156 ou 35% são de pessoas do sexo feminino. Além disso, mais de 10 mil informaram ter cor branca e 2.576, ser empresário.

As solicitações englobam os cargos de presidente e vice-presidente da República, governador e vice-governador, senador e suplentes, deputado federal, deputado estadual e deputado distrital.

A maior parte dos pedidos é para o cargo de deputado estadual (11.103 registros). Em seguida, aparecem as solicitações para deputado federal (7.636); para deputado distrital (420); para governar estados e o Distrito Federal (196); para senador (315); e para a Presidência da República (13).

A relação entre candidatos e vagas mostra maior concorrência para o cargo de deputado distrital, com 17,5 candidatos por vaga; e para o cargo de deputado federal, com 14,88 candidatos por vaga.

Gênero

Em relação à identidade de gênero, 11.758 candidatos se declararam cisgênero (99,07%) – quando a identidade de gênero corresponde ao sexo; 107 se declararam transgênero (0,9%); e 3 preferiram não informar (0,03%).

O TSE registrou ainda pedidos de 53 candidatos que declararam nome social.

Faixa etária

A maioria das solicitações foi feita por candidatos com idade entre 45 e 49 anos (3.538 pedidos). Na sequência, aparecem candidatos com idade entre 50 e 54 anos (3.176); com idade entre 40 e 44 anos (2.986); e com idade entre 55 e 59 anos (2.581).

Cor e raça

Do total de pedidos de registro de candidatura, 10.013 são de pessoas que se declararam brancas (48,77%); 7.418 de pessoas que se declararam pardas (36,13%); e 2,8 mil de pessoas que se declararam pretas (13,64%)), além de 191 indígenas (0,93%) e 108 de cor amarela (0,53%).

Grau de instrução

A maior parte das solicitações foi feita por candidatos que declararam ter ensino superior completo (58,57%). Depois, vêm os candidatos que declararam ter ensino médio completo (21,41%); ensino superior incompleto (10,58%); ensino médio incompleto (3,56%); ensino fundamental incompleto (2,94%); e ensino fundamental completo (2,58%).

Ainda de acordo com os números, 73 candidatos (0,36%) declararam apenas saber ler e escrever.

Indígenas

Do total de 191 pedidos de registro de candidatura feitos por indígenas, 13 são da etnia Makuxí (8,13%); 12 são Guarani Kaiowá (7,5%); oito são de etnias não determinadas (5%); sete são Guaraní (4,38%); sete são Mundurukú (4,38%); sete são Múra (4,38%); sete não sabem sua etnia (4,38%); e seis são Terena (3,75%).

Ocupação

Os empresários (2.576) são os mais numerosos entre os candidatos. Advogados (1.691); deputados (874); vereadores (811); policiais militares (569); médicos (558); e servidores públicos estaduais (541) aparecem na sequência.
Além disso, 2.709 candidatos são listados pelo TSE na categoria outras ocupações.

 

 

 

 

Por - Agência Brasil

Fim do bafômetro? Multa por bombom de licor? Detecção de drogas? Entenda em perguntas e respostas o que muda na Lei Seca

Nova regulamentação do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), órgão máximo normativo e consultivo do Sistema Nacional de Trânsito, aprovou a atualização das regras da Operação Lei Seca no país.

A nova regulamentação substitui a resolução antiga, de 2013, e prevê entre as novidades um procedimento mais claro para evitar a confusão do "álcool residual" de produtos como bombom de licor e pão de forma com situações de alcoolemia, além da possibilidade de adoção de equipamentos capazes de captar drogas e medicamentos que tiram a capacidade de dirigir — os chamados "drogômetros" precisam ser certificados no âmbito do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade (SBAC), por organismo acreditado pelo Inmetro, conforme os requisitos da resolução. A aplicação em blitze dependerá ainda da disponibilidade dos órgãos fiscalizadores.

O novo regramento, cuja maior parte entra em vigor após a publicação no Diário Oficial da União (DOU), passa a prever três formas principais de verificação durante a fiscalização: teste com etilômetro para álcool; teste em equipamento destinado à verificação da presença de outras substâncias psicoativas; e constatação de "sinais" de alteração da capacidade psicomotora do motorista pela própria observação do agente de trânsito. Seguem admitidos, de forma complementar, vídeos, imagens e outros meios de prova aceitos legalmente.

Veja abaixo, em perguntas e respostas, o que permanece e o que muda com a nova regulamentação, conforme a resolução e explicações das autoridades nacionais de Trânsito obtidas pelo GLOBO:

1. Quais as principais mudanças do texto aprovado pelo Contran?

A regulamentação disciplina procedimentos de triagem antes do teste probatório do etilômetro, regras expressas para evitar confusão com pão de forma, bombom de licor e outros produtos e atualiza requisitos do etilômetro. Há ainda um tratamento considerado mais completo de substâncias; a correção de lacuna em relação às outras substâncias e um critério dito mais objetivo para a identificação, via observação, da alteração da capacidade psicomotora do motorista. Também são citados um procedimento mais claro nos sinistros de trânsito e a atualização do manual de fiscalização. (Leia detalhes de cada uma, ao fim do texto.)

2. A resolução cria novas infrações de trânsito?

Não. As infrações continuam a ser a do artigo 165 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), de "dirigir sob a influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência", e a do artigo 165-A, de "recusar-se a ser submetido a teste, exame clínico, perícia ou outro procedimento que permita certificar influência de álcool ou outra substância psicoativa".

A resolução apenas regulamenta novos procedimentos de fiscalização.

3. O que são substâncias psicoativas?

São substâncias capazes de alterar o funcionamento do sistema nervoso central e comprometer a capacidade de dirigir, como drogas ilícitas e outras substâncias que determinem dependência.

4. O equipamento deve identificar qual droga foi consumida?

Sim. A resolução prevê que o auto de infração deverá conter, entre outras informações, o tipo de substância detectada pelo equipamento.

5. O equipamento informa a quantidade da substância?

Não. Diferentemente do teste de alcoolemia, o resultado neste caso é qualitativo. Isto é, indica a presença ou não da substância psicoativa, e não sua concentração.

6. Os equipamentos poderão ser utilizados imediatamente?

A utilização dependerá da disponibilidade dos órgãos fiscalizadores e da existência de equipamentos certificados conforme os requisitos estabelecidos pela resolução, segundo as autoridades nacionais de Trânsito.

7. Os equipamentos precisam ser certificados?

Sim. Só poderão ser utilizados equipamentos certificados no âmbito do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade (SBAC), por organismo acreditado pelo Inmetro.

8. A pessoa poderá se recusar a realizar o teste?

Sim, mas a recusa continua sujeita às consequências previstas no art. 165-A do CTB. A punição prevista é de multa e suspensão do direito de dirigir por 12 meses, além de recolhimento do documento de habilitação e retenção do veículo.

9. O agente ainda poderá utilizar os sinais de alteração da capacidade psicomotora para autuar o motorista?

Sim. A verificação dos sinais permanece como um dos meios de fiscalização previstos na resolução.

10. O bafômetro deixa de existir?

Não. O etilômetro continua sendo utilizado normalmente para fiscalização do consumo de álcool. A novidade é a inclusão de equipamentos específicos para outras substâncias psicoativas.

11. A fiscalização continuará podendo ser realizada mesmo sem o novo equipamento?

Sim. A verificação dos sinais de alteração da capacidade psicomotora continua sendo um dos meios legalmente previstos para a fiscalização, assim como o etilômetro nos casos de consumo de álcool.

12. A resolução altera as penalidades previstas no Código de Trânsito Brasileiro?

Não. A Resolução não altera as penalidades previstas no CTB, mas sim, regulamenta os procedimentos de fiscalização e de comprovação da infração.

Os órgãos deverão promover as adaptações necessárias em seus sistemas e procedimentos internos para utilização dos novos códigos de enquadramento, que entram em vigor 60 dias após a publicação.

15. Haverá autuação durante o período de 60 dias até a entrada em vigor dos novos códigos de enquadramento?

Sim. A fiscalização e a aplicação das penalidades previstas no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) permanecem normalmente em vigor durante esse período.

Os condutores que forem flagrados dirigindo sob a influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência (ou se recusem a passar pelo procedimento) continuarão sujeitos às penalidades previstas no CTB.

O prazo de 60 dias aplica-se exclusivamente à entrada em vigor das alterações do Anexo III da resolução, que institui novos códigos de enquadramento e fichas de fiscalização, permitindo que os órgãos e entidades de trânsito realizem as adequações necessárias em seus sistemas informatizados. Até lá, permanecem sendo utilizados os códigos atualmente vigentes.

 

Entenda a nova regulamentação

A nova proposta moderniza procedimentos, traz segurança jurídica para a aplicação práticas e tecnologias já utilizadas na fiscalização e preenche brechas desse trabalho, além de atualizar o Manual Brasileiro de Fiscalização de Trânsito. O regramento passa a valer a partir de publicação no Diário Oficial da União (DOU), à exceção das fichas de fiscalização e dos códigos de enquadramento das infrações, que só entrarão em vigor 60 dias após a publicação.

— A atualização da resolução que regulamenta os procedimentos da Lei Seca era necessária para acompanhar as mudanças na legislação e tratar de questões que ainda não estavam adequadamente previstas. Com isso, fortalecemos a efetividade da fiscalização e damos mais segurança jurídica tanto aos profissionais responsáveis pela aplicação da lei quanto ao próprio cidadão — ressalta ao GLOBO o secretário nacional de Trânsito, Adrualdo Catão.

Em junho, O GLOBO mostrou que o uso dos "drogômetros" é nova aposta de investimento da Lei Seca, aprovada há 18 anos. Especialistas apontaram que a operação está consolidada no país e contribuiu para a redução de acidentes, mas citaram lacunas de uma fiscalização que, até então, só "pegava" motoristas que assumiam o volante após beberem álcool.

Autor da Lei Seca, o deputado Hugo Leal (PSD-RJ) avalia que a modernização da regulamentação sobre o consumo de álcool e drogas no trânsito chega em um "momento crucial".

— É um marco significativo nas políticas públicas de segurança viária do país. Ao ampliar os meios de prova, incluindo o drogômetro na norma, a iniciativa fortalece o combate ao consumo de drogas no trânsito, permitindo uma atuação mais eficaz contra condutas que colocam vidas em risco. A nova regulamentação, ao combinar inovação tecnológica e o aprimoramento dos mecanismos de fiscalização, reafirma o compromisso inabalável com a proteção da vida, promovendo um trânsito mais seguro e responsável para toda a sociedade — destaca o parlamentar.

A nova resolução não prevê uma tecnologia ou modelo específico de "drogômetro". O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) já trazia a proibição de dirigir sob influência de substâncias psicoativas e admitia a realização de exames toxicológicos para constatar a prática — no entanto, a regulamentação de 2013 não previa operacionalmente o uso de equipamento para esta finalidade.

A resolução estabelece que os aparelhos destinados à detecção de outras substâncias psicoativas deverão ser certificados no âmbito do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade (SBAC), por organismo acreditado pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). E a Secretaria Nacional de Trânsito (SENATRAN) poderá editar normas complementares para disciplinar sua utilização.

Outra novidade é a exigência de a pessoa submetida à fiscalização exibir pelo menos dois sinais de que está alcoolizada para haver a confirmação da alteração da capacidade psicomotora pela observação do agente. Os sinais deverão ser descritos no auto de infração ou em termo específico.

Não haverá novas infrações de trânsito. O condutor "pego" na Lei Seca, seja pelo consumo de álcool ou outras substâncias, poderá ser autuado pelos artigos 165 e 165-A do CTB.

No caso do álcool, os parâmetros utilizados permanecem os mesmos: medição a partir de 0,05 mg/L para caracterização da infração administrativa e 0,34 mg/L para a hipótese criminal, considerada a margem de erro. Para outras drogas, o resultado é qualitativo, ou seja, indica a presença ou não da substância psicoativa, e não sua concentração.

 

Veja as principais mudanças:

Triagem antes do teste probatório do etilômetro

A nova resolução prevê expressamente a adoção do pré-teste ou do teste passivo de alcoolemia nas triagens da fiscalização. O procedimento permite identificar indícios da presença de álcool de forma rápida, antes da realização do procedimento probatório.

O resultado do pré-teste não caracteriza infração nem fundamenta autuação ou imputação ao motorista da condução sob influência de álcool, mas agiliza a fiscalização. Se houver indicação de álcool nessa primeira sondagem, aí sim, passa-se ao teste tradicional.

Esse tipo de triagem já era adotado por órgãos de fiscalização no país, como no Espírito Santo, no Mato Grosso do Sul, no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. A própria Polícia Rodoviária Federal também já utilizou esse modelo de fiscalização, com posterior teste confirmatório.

A ideia, neste caso, é estabelecer uma regra nacional sobre o funcionamento do pré-teste e deixar clara a impossibilidade de ele, sozinho, produzir algum efeito sancionatório para o motorista.

Regra expressa para evitar confusão com pão de forma, bombom de licor

A nova resolução também prevê situações em que deve ser realizado um "reteste": quando a obtenção de resultado válido tiver sido "prejudicada por motivo técnico ou operacional", inclusive para afastar eventual influência de álcool presente no trato respiratório superior.

Essa regra vem para responder a uma dúvida recorrente sobre motoristas que consomem — e depois pegam o carro — bombom de licor, enxaguante bucal, pão de forma e outros produtos capazes de deixar resíduos de álcool na boca.

O Detran do Mato Grosso do Sul já havia explicado ao público como esses produtos podem produzir indicação momentânea relacionada à presença de álcool na mucosa da boca. A fiscalização, neste caso, utiliza primeiro o teste passivo e, com a indicação positiva, segue para o procedimento posterior antes de gerar qualquer conclusão.

A mudança de agora significa que passa a existir na regulamentação nacional uma cautela expressa sobre essa possível confusão: deverá haver uma triagem sem valor probatório e também a previsão de reteste, quando necessário, para afastar interferência de álcool residual no trato respiratório superior.

Requisitos do etilômetro são atualizados

O etilômetro utilizado para fins probatórios continua submetido ao controle metrológico. O modelo deve ser aprovado pelo Inmetro, e o equipamento deve passar pelas verificações metrológicas previstas.

Os parâmetros utilizados na fiscalização permanecem os mesmos: medição a partir de 0,05 mg/L para caracterização da infração administrativa e 0,34 mg/L para a hipótese criminal, considerando sempre a margem de erro aplicável.

Tratamento mais completo de substâncias

A resolução organiza separadamente os procedimentos para álcool e para outras substâncias psicoativas. Para álcool, permanecem o etilômetro e a constatação de sinais de alteração da capacidade psicomotora.

Já para as outras substâncias, passa a ser admitido também equipamento tecnicamente certificado para essa finalidade, além da verificação dos sinais de alteração da capacidade psicomotora. (Aqui entra a possibilidade de adoção dos "drogômetros", depois de serem certificados pelo Inmetro.)

A resolução, no entanto, não cria um equipamento específico nem estabelece que qualquer vestígio de determinada droga caracteriza uma infração. A norma cria o procedimento necessário para que equipamentos tecnicamente aptos e devidamente certificados possam ser utilizados, seguindo a possibilidade já prevista pelo Código de Trânsito Brasileiro.

Correção de lacuna em relação às outras substâncias

O Código de Trânsito Brasileiro proíbe que as pessoas dirijam sob influência de outras substâncias psicoativas e admite testes toxicológicos e outros meios técnicos ou científicos para constatar a prática. Mas a regulamentação de 2013 não previa operacionalmente o uso de equipamento para esta finalidade.

A própria Nota Técnica da Senatran registra que a ausência de um instrumento de aferição imediata e padronizada dificultou a aplicação efetiva da legislação em relação às demais substâncias.

A nova resolução corrige essa lacuna sem vincular o Contran a uma tecnologia ou modelo específico de equipamento.

Critério mais objetivo para alteração da capacidade psicomotora

A proposta também reduz a subjetividade na avaliação feita durante a abordagem.

Para confirmação da alteração da capacidade psicomotora pela observação do agente serão necessários pelo menos dois sinais, que deverão ser descritos no auto de infração ou em termo específico.

Procedimento mais claro nos sinistros de trânsito

Nos sinistros, os condutores deverão ser submetidos aos procedimentos de fiscalização sempre que possível.

Nos casos de pessoas que morrerem em decorrência de sinistro de trânsito, passa a ser obrigatória, para fins da perícia oficial, a realização de exame destinado a detectar álcool ou outras substâncias psicoativas.

Essas informações deverão também subsidiar o planejamento, a gestão e a avaliação das políticas públicas de segurança viária.

Atualização do manual de fiscalização

A proposta também atualiza as fichas do Manual Brasileiro de Fiscalização de Trânsito, detalhando e padronizando os procedimentos relativos ao álcool, às demais substâncias psicoativas e à recusa de se submeter a equipamentos da fiscalização.

Entre outros pontos, o novo manual diferencia os enquadramentos, disciplina como cada situação deve ser registrada e impede a lavratura simultânea de autos pelos arts. 165 e 165-A na mesma abordagem (isto é, "dirigir sob a influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência" e "recusar-se a ser submetido a teste, exame clínico, perícia ou outro procedimento que permita certificar influência de álcool ou outra substância psicoativa").

 

 

 

 

 

 

Por - O Globo

Até quando vai o calor? Frente fria avança na quinta pelo Sul; ar frio ganha força no fim de semana no Sudeste

O calor intenso ainda domina boa parte do interior do Brasil nesta terça-feira (18), mas a semana terá uma mudança importante no tempo.

Depois de vários dias de temperaturas elevadas umidade muito baixa, uma frente fria começa a avançar pelo Sul na próxima quinta-feira (20) e abre caminho para uma massa de ar frio mais forte, que ganha intensidade no fim de semana e que também alcançará áreas do Centro-Oeste e do Sudeste.

Até lá, o destaque continua sendo a onda de calor. Segundo a Climatempo, o fenômeno deve persistir até quinta-feira (20) em áreas do interior do país, com temperaturas muito acima do normal para esta época do ano.

Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, oeste e sul de Goiás, partes de Rondônia, do Paraná, de São Paulo e de Minas Gerais estão entre as áreas mais afetadas (veja no MAPA abaixo).

Nesta terça, a Climatempo prevê máxima de 38°C em Cuiabá (MT) e de 35°C em Campo Grande (MS). São Paulo (SP) pode chegar aos 30°C, Rio de Janeiro (RJ), aos 31°C, Belo Horizonte (MG), aos 29°C, e Curitiba (PR), aos 28°C. Porto Alegre (RS), já sob maior influência da chuva, deve registrar cerca de 22°C.

Onda de calor vai até o dia 20. — Foto: Arte/g1

Onda de calor vai até o dia 20. — Foto: Arte/g1

 

Quando o frio chega?

A mudança começa entre a noite de quarta-feira (19) e a quinta (20), quando uma frente fria passa a avançar pelo Sul e também favorece a entrada de ar mais frio pelo Pantanal e por Mato Grosso do Sul.

Na sequência, as temperaturas caem em áreas de Mato Grosso, incluindo Cuiabá e trechos do sul e do leste do estado, enfraquecendo o calor mais intenso.

Segundo a Climatempo, a queda de temperatura começa a aparecer na quinta-feira no Sul, em Mato Grosso do Sul, no oeste de São Paulo e no sul de Mato Grosso, justamente no último dia previsto para a onda de calor.

Na sexta-feira (21), a frente fria alcança a faixa costeira do Sudeste e ajuda a mudar a direção dos ventos, abrindo caminho para a entrada de ar mais frio.

No fim de semana, uma nova e mais forte incursão de ar frio amplia o resfriamento e derruba ainda mais as temperaturas no Sul, no Sudeste e em parte do Centro-Oeste.

 “Em São Paulo, o calor não deve durar muito. A Região Metropolitana ainda está sob efeito da onda de calor, mas a passagem de uma frente fria pela costa na sexta-feira deve mudar a direção dos ventos e favorecer a entrada de ar mais frio, de origem polar e oceânica", diz César Soares, meteorologista da Climatempo.

"Com isso, as temperaturas caem de forma acentuada no fim de semana. Na capital paulista, a previsão é de mínima de 13°C e máxima de 22°C”, afirma César. 

A tendência é que o frio ganhe força entre sábado e domingo (23), principalmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.
 

Mesmo durante a tarde, as temperaturas devem ficar baixas em muitas cidades. O pico dessa massa de ar frio é esperado entre domingo e segunda-feira (24), quando as madrugadas podem registrar algumas das menores temperaturas deste episódio.

No Rio Grande do Sul, as mínimas podem ficar entre 0°C e 5°C, com marcas negativas e até -6°C nas áreas mais frias.

Em Santa Catarina, o Planalto Sul pode chegar a -7°C, enquanto Curitiba (PR) deve ter mínimas de 5°C a 6°C. Em Porto Alegre (RS), os termômetros podem marcar 5°C 7°C, com até 1°C 3°C em pontos da região metropolitana, segundo a MetSul Meteorologia.

 
 

No Sudeste, o frio não deve alcançar a mesma intensidade observada no Sul, mas a queda será perceptível.

Em São Paulo, a queda será mais sentida no sul e no leste do estado. Na capital, após dias perto ou acima dos 30°C, as mínimas podem cair para 10°C ou 11°C, com tardes mais frias na segunda e na terça-feira. 

A massa de ar frio também deve alcançar Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo. No Rio de Janeiro e no Espírito Santo, a queda de temperatura pode vir acompanhada de muita umidade e chuva na primeira metade da próxima semana.

O encontro dos ventos frios e úmidos vindos do oceano com as áreas de serra pode favorecer volumes elevados em alguns pontos.

No Centro-Oeste, a queda será mais forte em Mato Grosso do Sul. Em Campo Grande (MS), as temperaturas ficam perto de 13°C a 16°C no fim de semana e podem cair para 10°C na segunda e na terça-feira, com máximas de apenas 15°C.

Em Cuiabá (MT), o efeito será menor: o fim de semana ainda terá máximas de 34°C, mas na segunda-feira os termômetros já variam entre 20°C e 29°C.

Já em Brasília (DF), a mudança é mais discreta, com temperaturas ainda acima dos 30°C em parte do período.

Temperaturas máximas previstas para esta terça em todo o Brasil. — Foto: CPTEC/Inpe

Temperaturas máximas previstas para esta terça em todo o Brasil. — Foto: CPTEC/Inpe

 

 

Previsão para esta terça-feira

Esta terça-feira será de calor intenso e tempo seco em grande parte do Centro-Oeste e do interior do Sudeste, com temperaturas elevadas e umidade baixa durante a tarde.

Ao mesmo tempo, o Rio Grande do Sul terá risco de chuva forte e temporais, e o litoral do Nordeste, principalmente entre Alagoas e Pernambuco, também entra em atenção para volumes elevados.

Segundo a Climatempo, o Centro-Oeste continua entre as áreas mais quentes do país. Mato Grosso e Mato Grosso do Sul concentram as maiores temperaturas, com Cuiabá (MT) podendo chegar aos 38°C e Campo Grande (MS), aos 35°C.

Em várias áreas da região, a umidade cai bastante durante a tarde e pode ficar entre 12% e 20%, principalmente em Mato Grosso.

O tempo seco também predomina no interior do Sudeste. Em São Paulo, o calor ganha força principalmente no oeste e no noroeste do estado, além do Triângulo Mineiro e do oeste de Minas Gerais. A umidade pode variar entre 20% e 30% em parte dessas áreas.

Na capital paulista, São Paulo (SP) terá sol entre poucas nuvens, sem previsão de chuva significativa, e máxima de 30°C. No Rio de Janeiro (RJ), o dia também será de sol e tempo firme, com máxima de 31°C. Belo Horizonte (MG) pode chegar aos 29°C.

No Sul, há previsão de chuva sobre parte do Rio Grande do Sul, com pancadas moderadas a fortes no sul, sudoeste, sudeste, litoral sul e na Campanha gaúcha.

Em Porto Alegre (RS), a chuva deve aumentar ao longo do dia e pode vir acompanhada de trovoadas.

No Norte, a terça-feira terá pancadas de chuva com trovoadas isoladas no Acre e no oeste do Amazonas, além de chuva pontual no leste do Amapá e do Pará e no norte de Rondônia.

Nas demais áreas, o tempo fica mais firme e seco, com baixa umidade em Rondônia, no sudeste do Amazonas, no centro-sul do Pará e no Tocantins. Porto Velho (RO) pode chegar aos 38°C.

No Nordeste, a chuva se concentra principalmente no litoral norte da Bahia, em Sergipe, Alagoas e no litoral sul de Pernambuco. Já o interior segue quente e seco, com baixa umidade em áreas do Maranhão, Piauí, Ceará, Bahia, Paraíba e Pernambuco.

Em Teresina (PI), a máxima pode chegar aos 37°C, enquanto no litoral as temperaturas ficam mais amenas.

 

 

 

 

 

 

Por - G1

Como o 'Super El Niño' pode afetar economia global e fazer subir os preços de alimentos

O Super El Niño que está se formando no Oceano Pacífico não deve trazer apenas mudanças no clima. O fenômeno também pode provocar impactos na economia, com efeitos sobre a produção de alimentos, os preços e os gastos para recuperar áreas atingidas por eventos extremos.

Anos de El Niño costumam ser marcados por escassez de alimentos e aumento de preços. Isso acontece porque secas, enchentes e ondas de calor podem prejudicar plantações e provocar perdas na produção.

O impacto pode chegar ao consumidor. Com uma oferta menor de determinados alimentos, os preços tendem a subir, aumentando a pressão sobre o custo de vida.

 

Secas e enchentes podem gerar prejuízos

Os efeitos econômicos não ficam restritos ao campo. Eventos extremos também podem destruir estradas, casas e outras estruturas, exigindo grandes investimentos para reconstrução.

Os prejuízos acumulados provocados por secas, enchentes e ondas de calor chegam à ordem de trilhões de dólares no mundo.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, as chuvas de 2024 provocaram mais de 100 deslizamentos em um trecho de 20 quilômetros de estrada. A reconstrução do local foi estimada em R$ 700 milhões, e, dois anos depois, a estrada ainda permanecia em obras.

Além do custo direto para reconstruir a infraestrutura, empresas e produtores também podem ter prejuízos com a interrupção de atividades e a perda de produção.

 

Pressão sobre a inflação

A combinação de menor produção de alimentos e aumento dos gastos para reparar áreas destruídas pode pressionar a economia.

Quando eventos climáticos reduzem a oferta de alimentos, o efeito pode aparecer nos preços. Ao mesmo tempo, governos e empresas precisam destinar recursos para reconstruir estradas, instalações e outras estruturas danificadas.

Segundo especialistas, esse conjunto de prejuízos pode afetar o crescimento econômico mundial.

O impacto, portanto, pode acontecer em diferentes etapas: o clima extremo prejudica a produção, a menor oferta pode encarecer alimentos e os danos à infraestrutura aumentam os custos de reconstrução.

 

Um fenômeno global

O El Niño não atinge apenas o Brasil. As alterações provocadas pelo aquecimento das águas do Pacífico modificam a circulação atmosférica e podem provocar efeitos em diferentes partes do planeta.

No episódio atual, cientistas apontam que o fenômeno está ocorrendo em um planeta já mais quente por causa do aquecimento global.

As previsões indicam mais de 90% de chance de um El Niño muito forte. O fenômeno deve atingir o pico em dezembro e pode continuar com intensidade forte ou muito forte durante o primeiro semestre de 2027.

Ainda não é possível saber exatamente quais serão os impactos econômicos em cada região. Mas, conforme o fenômeno avançar, as previsões devem ficar mais precisas sobre os locais e períodos mais afetados.

Por enquanto, os cientistas já sabem que o super El Niño pode representar não apenas um desafio climático, mas também uma ameaça para a produção de alimentos, a infraestrutura e a economia global.

 
 
 
 
 
 
Por - G1/Fantastico
Bets: quatro em cada dez mulheres apostam ou já apostaram online

Quatro em cada dez mulheres brasileiras (42%) já jogaram ou continuam jogando em plataformas de apostas online, sendo que 20% apostam atualmente (com frequências variadas) e outras 22% já apostaram, mas não apostam mais. 

Dentre 58% das mulheres que nunca apostaram, 12% são afetadas por parentes ou amigos que apostam. Somadas, mais da metade das mulheres no Brasil (54%) sente o efeito direto das bets, sendo apostadoras ou não.

Os dados são da pesquisa Mulheres e Bets: o Custo das Apostas Online para as Brasileiras e suas Famílias, conduzida pelo estúdio Clarice, Estratégia Latina e Instituto Ideia e divulgada nesta segunda-feira (17).

A fundadora e diretora do estúdio Clarice, Beatriz Della Costa, explica que essa é a primeira pesquisa sobre o impacto das bets que traz a perspectiva não somente da apostadora, mas de quem é afetado por quem aposta.

Ela enfatiza que as experiências colocadas lado a lado conseguem dar uma visão mais completa da crise:

"O impacto das bets vai muito além da crise financeira e afeta as estruturas familiares. Essa análise mostra que é possível pensar não apenas na contenção da crise, mas na prevenção da mesma."

Perfil de apostadores

O levantamento inédito mostra também que as mulheres com filhos apostam cerca de 1,6 vez mais do que mulheres sem filhos (72% das apostadoras têm filhos).

No recorte racial, 45% das mulheres autodeclaradas pardas afirmaram que apostam ou já apostaram; 39% são brancas e 37%, mulheres pretas.

Um dos achados da pesquisa é sobre as diferenças de gênero dos apostadores: para o apostador homem, ter filhos atenua o julgamento. Já para a apostadora, é o contrário: com filhos, ela é mais culpada e mais questionada como provedora.

Para a cientista social Beatriz Della Costa, esse é um sintoma dos papéis sociais historicamente atribuídos a homens e mulheres. 

"O homem é visto como alguém que está tentando sustentar a família – esse é um papel honrável que, em alguma medida, o redime. A mulher, por outro lado, sofre uma cobrança social muito maior enquanto gestora do lar: o papel fundamental atribuído a ela pela sociedade é o do cuidado, e por isso ela sofre um julgamento muito maior quando não cumpre a função designada."

Os relatos das apostadoras confirmam a dinâmica para jogar: elas apostam sozinhas e escondem o jogo dos parentes por vergonha.

O segredo gera culpa ao mesmo tempo em que coloca em risco as relações mais fundamentais. Entre as apostadoras, 30% delas costumam jogar mais à noite ou de madrugada do que em qualquer outro momento do dia, contra 20% homens.

Entre os entrevistados, 15% dos brasileiros acreditam que alguém que mora com eles faz apostas online, mas não conta a ninguém e faz dívidas escondidas. 

Motivação

A pesquisa revela que, para a mulher, a aposta nasce menos como lazer ou entretenimento e mais como uma estratégia de administração financeira e sobrevivência doméstica para cobrir despesas essenciais, por exemplo pagar boletos, comprar comida ou itens para os filhos.

A especialista em mulheres e poder explica que as apostadoras não estão correndo atrás de uma vida luxuosa.

"Elas querem viver com um pouco mais de dignidade: para além das necessidades imediatas, querem levar os filhos ao cinema, pedir um delivery e pagar o material escolar sem se preocupar com a conta de luz no final do mês."

As apostas online se infiltraram nos lares brasileiros com a fama de renda fácil. Segundo Della Costa, as plataformas atuam em duas frentes. Primeiramente, tentam seduzir pela promessa de vida digna - a conta paga, a mesa farta, o presente para os  filhos. Ao mesmo tempo que as apostas se associam ao dever do cuidado, papel historicamente atribuído às mulheres.

"O desejo de cuidar da família e prover para os filhos é o mais explorado pelas [casas de] apostas." 

 Beatriz Della Costa, fundadora e diretora da CLARICE, cientista social e especialista em mulheres e poder. Foto: Mariana Leitão
Cientista social Beatriz Della Costa é especialista em mulheres e poder e fundadora do estúdio Clarice - Mariana Leitão/divulgação/proibida reprodução

Crianças e adolescentes

Por lei, as apostas são proibidas para menores de 18 anos no Brasil. Mas, as apostas chegam a crianças e adolescentes por influência de fora de casa — amigos, escola, redes sociais — ou, em alguns casos, pelas próprias mães, para quem jogar junto pode ser vivido como companhia e vigilância.

Os dados da pesquisa identificaram que burlar a regra dos 18 anos passa, quase sempre, pelo uso do Cadastro de Pessoa Física (CPF) de um adulto da casa, com ou sem consentimento.

Ilusão 

O jogo é encarado pela apostadora como estratégia de investimento. Em alguns casos, o envolvimento é tão intenso que a aposta passa a ser encarada como trabalho. 

O estudo descobriu que as casas de apostas online conseguiram incutir a ideia de que existem macetes e estratégias para vencer jogos de azar, inclusive em cassinos online.

Essa ideia falsa influencia a percepção das apostadoras, pois 25% das mulheres (e cerca de 40% das apostadoras frequentes) acreditam que é preciso "habilidade ou expertise" para vencer as apostas. Por esse motivo, elas buscam se especializar. 

A diretora do estúdio Clarice defende que, para desmistificar essa ilusão é preciso restringir a publicidade sobre as apostas online.

"Cursos, coaches e conteúdos com dicas e macetes precisam ser veementemente banidos. As restrições aos jogos de cassino online, que ainda são permeados pela ilusão da 'habilidade' e que concentram a maior parte das apostadoras, também devem ser consideradas", diz Della Costa.

Impacto social

Para 67% das entrevistadas, as apostas estão acabando com as famílias brasileiras (ante 59% dos homens). 

Além da perda financeira, eles percebem que os jogos levam para dentro de casa brigas, agressões, mentiras e o adoecimento mental: 23% dos brasileiros presenciaram ou conhecem alguma situação em que as apostas contribuíram para casos de violência dentro das famílias.  

Nas entrevistas, as mulheres impactadas por um familiar apostador são as que mais percebem a violência. Falam de comportamentos agressivos, xingamentos e perda de controle quando os companheiros perdem.

Outra parte diz ter filhos endividados com agiotas e a sensação de insegurança que passa a acompanhar a família. Entre os efeitos declarados pelas impactadas na própria vida ou na família:

  • 24% relatam conflitos familiares;
  • 24% perda de confiança;
  • 21% desgaste emocional;
  • 12% mudança na qualidade de vida.

Entre os impactados, 40% acreditam que as apostas online afetam a capacidade da pessoa viciada em relação a trabalhar ou gerar renda (36% entre as mulheres e 45% entre os homens).

Empréstimo 

Quando questionadas se alguma vez pegou dinheiro emprestado para fazer apostas online, 7% das mulheres apostadoras declaram ter pegado dinheiro emprestado com agiotas.

E 8% das mulheres impactadas declaram que elas próprias ou alguém próximo precisou fazer empréstimo com agiotas, como os filhos endividados, o que aumentou a sensação de insegurança nos lares das brasileiras.  

Perfil dos jogos 

Entre as apostadoras, cerca de metade (49%) jogam em cassinos online (como roleta, Tigrinho e caça-níquel) e 29% em jogos de sorte instantânea (crash games como Aviator ou raspadinhas), 26% em bets de futebol, com atrativos pelo resultado e ciclo imediatos de ganho ou perda.

Apresentação das apostas

O estudo identifica que as plataformas capturam o imaginário feminino por três meios:

  1. redes de confiança como canal de vendas - a porta de entrada costuma ser o vínculo de confiança, como um amigo ou familiar que mandou o link de apostas, divulgam cadastros e sites de apostas em seu círculo pessoal em troca de bônus nas plataformas. Estas recompensam quem indica não apenas pelo cadastro, mas também com comissões sobre as perdas de quem entra pelo link enviado.
  2. influenciadores locais em quem se confia, como pessoas do bairro, da igreja ou da cidade, com número menor de seguidores, mas credibilidade alta, atribuída pela proximidade e pela identificação.
  3. grandes influenciadores e publicidade massiva;

A pesquisa apurou que 72% das mulheres acreditam que a publicidade das apostas contribui para que as pessoas apostem mais do que deveriam.

Entre as entrevistadas, 79% das mulheres afirmam que as redes sociais passaram a mostrar mais conteúdos de apostas depois de seu primeiro acesso às plataformas. Quem aposta com mais frequência percebe mais (82,2%) do que quem aposta raramente (73,2%).

A percepção das entrevistadas é de que quanto mais alta é a classe social, maior a percepção do aumento de conteúdo de apostas.

Conter o avanço

O Brasil tem forte apoio à proibição das apostas. As mulheres são as que mais cobram uma solução para o problema: 62% defendem a proibição dos jogos online no país ante 50% dos homens. A posição que se mantém majoritária independente do viés político.

"Isso sinaliza aos políticos que existe apetite na opinião pública por medidas de combate às bets", diz a coordenadora do estudo

A conclusão da pesquisa traz diretrizes em três eixos de combate às bets: 

  • fortalecer mecanismos da saúde pública que cuidam de pessoas que apostam e de familiares impactados;
  • prevenir que mais pessoas comecem a apostar, investindo em medidas de restrições à publicidade;
  • e gradualmente, restringir as modalidades de aposta, começando com os cassinos online.

Na opinião dos entrevistados, 45% aprovam o bloqueio do Pix em apostas para quem recebe benefícios sociais e 32% teriam interesse em um canal anônimo de apoio. Esse índice sobe para 57% entre quem aposta com frequência.

Em relação à publicidade, 41% das mulheres concordam que  as casas de apostas online podem continuar operando no Brasil, mas devem ser proibidas de fazer propaganda. Entre os homens, o percentual é maior (47%).

Pesquisa

O relatório foi feito a partir de estudos qualitativos e quantitativos (para mensurar o tamanho do fenômeno em números nacionais) realizados em junho e agosto de 2026.

As entrevistas qualitativas ouviram 60 pessoas, sobretudo mulheres de 18 a 58 anos, das classes C, D e E, residentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Sergipe.

Na enquete quantitativa, foram ouvidos 2.008 homens e mulheres em todo o país, de acordo com a distribuição da população contada no Censo demográfico de 2022 e na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2025, ambos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

 

 

 

 

Por - Agência Brasil

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