Um novo medicamento, exames de sangue e uma vila especializada estão entre os quatro avanços que deram esperança às pessoas que vivem com Alzheimer nos últimos quatro anos. E mais progresso pode estar a caminho para ajudar todos — jovens e idosos — em famílias que lidam com demência.
Houve avanços significativos nos últimos anos, quatro dos quais listamos abaixo para marcar o Dia Mundial de Alzheimer, em 21 de setembro.
O que é Alzheimer?
A doença de Alzheimer é a causa mais comum de demência em idosos, afetando mais de 55 milhões de pessoas, de acordo com a Alzheimer's Disease International.
O nome é uma referência a Dr. Alois Alzheimer. Em 1906, ele notou mudanças no tecido cerebral de uma mulher que havia morrido com sintomas que incluíam perda de memória e problemas de linguagem.
Sara Imarisio, chefe de pesquisa da Alzheimer's Research UK, disse à BBC: "A pesquisa está melhorando a forma como diagnosticamos, prevenimos e tratamos a doença de Alzheimer. Muitos anos de financiamento de pesquisas pioneiras, apoiando pessoas brilhantes com ideias ousadas nos levaram a este ponto, com vários tratamentos potenciais de Alzheimer no horizonte".

Estudos sobre a influência dos genes no risco de Alzheimer fizeram novos avanços em 2022 (Foto: GETTY IMAGES via BBC)
1. 'Grande salto' da pesquisa de influência genética (2022)
Um estudo marco, divulgado neste ano, vinculou pela primeira vez 42 genes extras à doença de Alzheimer.
Cientistas de oito países, incluindo França, Estados Unidos, Reino Unido e Austrália, analisaram o material genético de 111 mil pessoas com Alzheimer.
Eles identificaram 75 genes associados a um risco aumentado de desenvolver a doença, incluindo 42 não previamente implicados na condição.
Suas descobertas, publicadas na Nature Genetics, sugerem que a doença de Alzheimer é causada por muitos fatores, com evidências de que existe uma proteína específica envolvida na inflamação.
A coautora do estudo, Julie Williams, descreveu o trabalho como "um grande salto em nossa missão de entender a doença de Alzheimer e, finalmente, produzir vários tratamentos necessários para retardar ou prevenir a doença".
"Os resultados apoiam nosso crescente conhecimento de que a doença de Alzheimer é uma condição extremamente complexa, com múltiplos gatilhos, vias biológicas e tipos de células envolvidos em seu desenvolvimento."
Outra pesquisa mostrou que fatores de estilo de vida — como tabagismo e certas dietas — influenciam quem pode desenvolver a doença de Alzheimer. Mas os pesquisadores acreditam que a genética representa o maior risco.

A vila de Alzheimer em Dax, sudoeste da França, foi projetada para ajudar os pacientes a manter suas vidas sociais (Foto: GETTY IMAGES via BBC)
2. Aldeia de Alzheimer (2020)
Uma nova abordagem para cuidar e tratar a doença de Alzheimer são as vilas construídas especificamente para os pacientes viverem uma vida aparentemente normal, mas com a vigilância dos cuidadores.
A França criou uma vila dedicada à doença de Alzheimer em 2020, inspirada em uma "vila de demência" na Holanda.
Está localizada em Dax, no sudoeste da França, e oferece uma mercearia, salão de cabeleireiro e recitais de música. Foi projetada para se parecer com a tradicional "bastide" medieval — uma cidade fortificada comum na área local de Landes — para manter um senso de normalidade.

Paciente de Alzheimer corta o cabelo em setembro de 2020, logo após a abertura da vila (Foto: GETTY IMAGES via BBC)
O arquiteto responsável disse ao jornal Le Monde que a vila não teria qualquer cerca visível, e sim caminhos seguros, bem integrados na vida social e cultural da cidade.
Madeleine Elissalde, de 82 anos, foi uma das primeiras a se mudar.
"É como estar em casa", disse Elissalde. "Somos bem atendidos."
Aurore, neta de Elissalde, disse: "Sua perda de memória é menos grave". "Ela está feliz, ela redescobriu seu prazer de viver."
Um resultado desta vila de Alzheimer é que as pessoas que vivem perto dela parecem estar mudando suas opiniões sobre aqueles que vivem com Alzheimer.
Uma pesquisa com pessoas na cidade anfitriã da vila foi publicada pela Associação de Alzheimer em agosto de 2022. E mostrou uma classificação mais baixa no sentimento de aversão por pessoas com Alzheimer após a abertura da vila, em comparação com outra cidade sem vila de Alzheimer, onde as atitudes permaneceram as mesmas.

Os EUA aprovaram um novo medicamento para combater causas subjacentes da doença de Alzheimer (Foto: GETTY IMAGES via BBC)
3. EUA aprovaram o primeiro novo medicamento para Alzheimer em 20 anos (2021)
O primeiro novo tratamento para a doença de Alzheimer em quase 20 anos foi aprovado por reguladores nos EUA em junho de 2021.
O aducanumab tem como alvo a causa subjacente da doença de Alzheimer, a forma mais comum de demência, em vez de seus sintomas.
Em março de 2019, os ensaios internacionais de estágio avançado do aducanumab, envolvendo cerca de 3.000 pacientes, foram interrompidos. Seguiu-se uma análise mostrando que o medicamento, administrado como uma infusão mensal, não era melhor em retardar a deterioração da memória e problemas de pensamento do que um placebo.
Mas mais tarde no mesmo ano, a fabricante americana Biogen analisou mais dados e concluiu que a droga funcionava, desde que fosse administrada em doses mais altas.
A empresa também disse que diminuiu significativamente o declínio cognitivo.

Tentativas de combater Alzheimer focam na redução do declínio cognitivo (Foto: GETTY IMAGES via BBC)
No entanto, em dezembro de 2021, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) negou aprová-lo. A EMA disse que o aducanumab não parece ser eficaz no tratamento de adultos com sintomas iniciais da doença de Alzheimer.
Na época de sua aprovação nos EUA, vários cientistas disseram que havia poucas evidências de testes de benefício, apesar de ter como alvo o amiloide — uma proteína que forma aglomerados anormais no cérebro de pessoas com Alzheimer.

Os cientistas identificaram o beta-amilóide (mostrado em laranja) como tendo efeitos nocivos na doença de Alzheimer (Foto: GETTY IMAGES via BBC)
O novo medicamento é vendido nos EUA, mas há dúvidas em outros lugares sobre sua eficácia.
4. Exames de sangue antes que os sintomas de Alzheimer apareçam (2019)
Cientistas disseram em 2019 que poderiam identificar com precisão as pessoas com propensão à doença antes que os sintomas apareçam.

Um exame de sangue preciso pode acelerar a pesquisa de tratamentos medicamentosos para demência (Foto: GETTY IMAGES via BBC)
Cientistas dos EUA foram capazes de usar os níveis de amiloide no sangue para ajudar a prever seu acúmulo no cérebro.
Pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Washington, no Estado americano de Missouri, escrevendo na publicação Neurology, mediram os níveis da proteína beta amiloide no sangue de 158 adultos com mais de 50 anos. Eles queriam ver se exames cerebrais mostravam níveis semelhantes.
As análises mostraram níveis semelhantes, mas em apenas 88% das vezes — o que não é preciso o suficiente para um teste de diagnóstico.
Quando os pesquisadores combinaram essas informações com outros dois fatores de risco para a doença — ter mais de 65 anos e pessoas com uma variante genética chamada APOE4 — a precisão do exame de sangue melhorou para um nível de 94%.
Especialistas britânicos ouvidos pela BBC em 2019 disseram que os resultados eram promissores — e um passo em direção a um exame de sangue confiável para detectar Alzheimer.

Cientistas estão pesquisando se testes de laboratório de amostras de sangue podem diagnosticar a doença de Alzheimer (Foto: GETTY IMAGES via BBC)
No entanto, especialistas médicos também alertam contra a confiança em exames de sangue no momento.
A Associação de Alzheimer dos EUA diz: "vários testes de triagem de demência foram comercializados diretamente para os consumidores. Nenhum desses testes foi cientificamente comprovado como sendo preciso".
A entidade recomenda o diagnóstico de um médico avaliando uma série de fatores: "Por essas e outras razões, a Associação de Alzheimer acredita que os testes de triagem domiciliar não podem e não devem ser usados como substitutos de um exame completo por um médico qualificado".
Em resumo, há um potencial para exames de sangue para Alzheimer, mas o diagnóstico de um médico que avalia o comportamento do paciente é crucial para determinar se existem sintomas.

Placas amiloides são visíveis em neurônios afetados pela doença de Alzheimer (Foto: GETTY IMAGES via BBC)
Futuro do tratamento de Alzheimer e demência
De acordo com Sara Imarisio, chefe de pesquisa da entidade Alzheimer's Research UK, existem mais de 150 medicamentos em ensaios clínicos para a doença. Mas o processo de aprovação para uso em pacientes é demorado.
"No futuro, as estratégias de prevenção que combinam tratamentos com medicamentos e mudanças no estilo de vida podem ser a estratégia mais eficaz para limitar o impacto da demência. Embora os novos medicamentos levem muitos anos para se desenvolver, as mudanças no estilo de vida estão disponíveis para todos nós."
Em conclusão, reduzir seu risco através da adoção de várias medidas de estilo de vida saudável ajudará a reduzir sua chance de desenvolver Alzheimer
Por - BBC
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 55 milhões de pessoas vivem com algum tipo de demência, sendo a mais comum a doença de Alzheimer, que atinge sete entre dez indivíduos nessa situação em todo o mundo.
]A OMS alerta para a tendência de aumento preocupante desses números, com o envelhecimento da população. Estimativas da Alzheimer’s Disease International, sediada no Reino Unido, os números globais poderão chegar a 74,7 milhões, em 2030, e 131,5 milhões, em 2050.
Já aqui no Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que em torno de 1,2 milhão de pessoas têm a doença e 100 mil novos casos são diagnosticados por ano.
Nesta quarta-feira (21) celebra-se o Dia Mundial da Doença de Alzheimer, criado pela Associação Internacional do Alzheimer. No Brasil, a data marca o Dia Nacional de Conscientização da Doença de Alzheimer, instituído para esclarecer os brasileiros sobre a importância da participação de familiares e amigos nos cuidados aos diagnosticados com a doença.
“A doença de Alzheimer se manifesta por uma disfunção em que alguns neurônios do nosso cérebro começam a morrer”, disse à Agência Brasil o neurologista Silvio Pessanha Neto, diretor do Instituto de Educação Médica (Idomed). As doenças neurodegenerativas têm todas esse mesmo perfil. “Dependendo da localização desses neurônios, vão ocorrer sinais e sintomas diferentes. Mas a fisiopatologia é a mesma”, destacou o médico.
No caso do Alzheimer, um conjunto de neurônios sofre um processo defeituoso e começa a morrer. Como esses neurônios são justamente aqueles responsáveis pela memória, o paciente começa a ter incapacidade para gerar novas memórias. “Começa o esquecimento relacionado a eventos recentes”.
Pessanha explica que os primeiros sinais são identificados pela família e por amigos. “O indivíduo começa a esquecer coisas, como o nome dos netos; começa a repetir a mesma pergunta várias vezes; não consegue aprender coisas novas”.
Mais jovens
O Alzheimer é uma das formas de demência neurodegenerativa que, geralmente, afetam os idosos, já que trata-se de um processo lento e progressivo. Os sintomas começam, em geral, depois da sexta ou sétima décadas de vida. Para especialistas, a doença em jovens é muito rara e ocorre quando há predisposição genética para a doença.
“O jovem, entendido como alguém na faixa de 40 anos, quando tem [Alzheimer], esse processo começa muito precocemente, porque é preciso muito tempo para essa disfunção se manifestar”, diz Pessanha.
O especialista esclarece ainda que o Alzheimer não pode ser confundido com a demência senil: “o cérebro envelhece, como todo o corpo envelhece. Alzheimer é a doença. Não é o envelhecimento natural do nosso cérebro”.
Ferramenta
O médico nuclear e membro titular da Sociedade Europeia de Medicina Nuclear, José Leite, conta que a medicina ganhou importantes aliados para a detecção do Alzheimer, como um teste de imagem não invasivo, chamado PET Amiloide Florbetabeno (PET-CT com Florbetabeno-18F). “O exame é capaz de fazer a medição do volume de placas beta amiloides que, quando acumuladas, interferem no funcionamento das células cerebrais e são consideradas como digitais do Alzheimer pelos médicos”.
O exame é uma novidade no país e importante porque potencializa o diagnóstico. Como é uma doença progressiva, quanto o diagnóstico mais chances de iniciar um tratamento correto para melhorar a qualidade de vida do paciente. “É muito importante porque, quanto antes tiver o diagnóstico, o médico pode tratar melhor, começar a medicar o paciente para que se reduza a velocidade com a qual os neurônios começam a morrer. Aí, você eleva a qualidade de vida e o prognóstico do paciente melhora muito”, avalia Pessanha.
Segundo Marcus Tulius, neurologista do Complexo Hospitalar de Niterói (CHN) e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o novo exame é uma ferramenta para auxiliar no diagnóstico, mas, isoladamente, não é suficiente. “Ele fortalece a hipótese clínica. Possibilita a detecção precoce da condição e, juntamente com a avaliação dos sintomas existentes, é possível tentar estabilizá-los”.
Estímulos
Marcus Tulius destacou que a melhora da qualidade de vida do paciente com Alzheimer é propiciada quando se faz um tratamento mais precoce, “fazer com que a pessoa e a família se preparem para essa doença, apesar de saber que a doença vai progredir no futuro. Os medicamentos fazem com que essa evolução seja mais lenta”.
O Alzheimer é uma doença sem cura e não há uma prevenção comprovadamente eficiente. A prevenção consiste em manter uma atividade física e mental ativa, ler muito, escrever, fazer palavras-cruzadas, quebra-cabeças. “Quem ocupa o cérebro adia a doença”, diz Pessanha.
Além dos estímulos mentais, há evidências cada vez maiores de que exercícios físicos são benéficos para a prevenção e tratamento do Alzheimer. A atividade física regular, como por exemplo as caminhadas, não apenas protege contra alguns fatores de risco para o surgimento do Alzheimer, como hipertensão, colesterol alto e diabetes, como também traz benefício na velocidade de raciocínio, favorece a manutenção da memória e ajuda na prevenção do declínio cognitivo.
Estudos recentes relacionam o Alzheimer com outras doenças e, por esse motivo, um cuidado com a saúde em geral pode adiar o desenvolvimento da doença. “A gente sabe hoje que Alzheimer está ligado muito ao diabetes, à hipertensão, ao tabagismo, à síndrome da apneia obstrutiva do sono, a quadros de depressão. Então, se você precocemente trata essas situações, isso diminui o risco de o idoso, quando chega à terceira idade, desenvolver Alzheimer”, diz Marcus Tulius.
Apoio
O suporte da família ao paciente com Alzheimer é fundamental. “A pessoa está com uma enfermidade. Ela não confunde o nome do neto, por exemplo, porque quer. Tento pedir que a família apoie, estimule, leve para o cinema, o museu, o teatro, leve para passear, tenha paciência porque esses estímulos é que vão manter o paciente, por mais tempo, com uma qualidade mínima de vida para interagir com as pessoas”, recomenda Pessanha.
Por - Agência Brasil
O Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgou hoje (20) os parâmetros éticos a serem seguidos por especialistas e pacientes no âmbito da reprodução assistida. A resolução foi publicada no Diário Oficial da União.
O texto cita a infertilidade humana como um problema de saúde com implicações médicas e psicológicas e a necessidade de harmonizar o uso da técnica de reprodução assistida com os princípios da ética médica.
Idade
A publicação fixa 50 anos como idade máxima para candidatas à gestação por técnicas de reprodução assistida. As exceções a esse limite, segundo o CFM, serão aceitas com base em critérios técnicos e científicos fundamentados pelo médico responsável.
Consentimento
De acordo com a resolução, o consentimento livre e esclarecido é obrigatório a todos os pacientes submetidos à técnica. O documento deve ser elaborado em formulário específico, incluindo a concordância, por escrito, obtida a partir de discussão entre as partes envolvidas.
Seleção
As técnicas de reprodução assistida, segundo o texto, não podem ser aplicadas com a intenção de selecionar sexo (presença ou ausência do cromossomo Y) ou qualquer outra característica biológica da criança, exceto para evitar doenças.
Embriões
Quanto ao número de embriões a serem transferidos, a publicação fixa, para mulheres com até 37 anos, até dois embriões; e, para mulheres com mais de 37 anos, até três embriões. Em situações de doação de óvulos, considera-se a idade da doadora no momento da coleta.
Gravidez múltipla
A resolução destaca que, em casos de gravidez múltipla decorrente do uso de técnicas de reprodução assistida, fica proibida a utilização de procedimentos que visem a redução embrionária.
Pacientes
Ainda de acordo com o texto, todas as pessoas capazes que tenham solicitado o procedimento e cuja indicação não se afaste dos limites da resolução podem ser receptoras, desde que os participantes estejam em inteiro acordo e devidamente esclarecidos.
União homoafetiva
A publicação autoriza, em uniões homoafetivas femininas, a gestação compartilhada – situação em que o embrião obtido a partir da fecundação de óvulos de uma mulher é transferido para o útero de sua parceira.
Clínicas
As clínicas que aplicam técnicas de reprodução assistida, segundo a resolução, são responsáveis por procedimentos como controle de doenças infectocontagiosas; coleta; manuseio; conservação; distribuição; transferência; e descarte de material biológico humano.
Além disso, os centros devem apresentar requisitos mínimos como o registro permanente de gestações e desfechos (abortamentos, nascimentos e malformações de fetos e recém-nascidos); e o registro permanente de exames laboratoriais de pacientes.
Doação de gametas e embriões
O texto cita que a doação de gametas e embriões não pode ter caráter lucrativo ou comercial. Os doadores não devem conhecer a identidade dos receptores e vice-versa, exceto em casos de doação para parentesco de até quarto grau, incluindo, portanto, pais, filhos, avós, irmãos, tios, sobrinhos e primos.
A doadora, segundo o CFM, não pode ser cedente temporária do útero e a doação de gametas tem como idade limite em mulheres 37 anos e, em homens, 45 anos.
Barriga de aluguel
A chamada cedente temporária do útero, conforme o texto, deve ter ao menos um filho vivo e pertencer à família de um dos parceiros em parentesco consanguíneo até quarto grau. A cessão não pode ter caráter lucrativo ou comercial e a clínica não pode intermediar a escolha da cedente.
Post mortem
A resolução permite a reprodução assistida post mortem, desde que haja autorização específica para o uso do material biológico criopreservado em vida, de acordo com a legislação vigente.
Por - Agência Brasil
Pesquisa liderada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificou um conjunto de proteínas ligadas à depressão tardia, doença que acomete idosos.
Foram determinadas moléculas que podem contribuir para diagnósticos e tratamentos mais eficazes. O estudo, que foi publicado no periódico europeu Journal of Proteomics, envolve também cientistas das universidades de Connecticut (EUA) e de Toronto (Canadá), além da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Daniel Martins-de-Souza, professor da Unicamp e coordenador do trabalho, destaca que um dos objetivos é entender a similaridade com a depressão. “Ainda não temos ideia de quão similar, do ponto de vista molecular, essa depressão tem com a depressão maior, que afeta quase 10% da população. E, da mesma forma como [ocorre] para depressão maior, não temos biomarcadores que possam identificar ou predizer que alguém vai desenvolver isso no futuro”, aponta.
Uma das diferenças entre as duas manifestações da doença pode estar ligada ao aspecto ambiental. “Ou seja, as pessoas passam por experiências na vida que acabam dirigindo mudanças biológicas que levam à depressão. Isso também é verdade para a depressão maior, mas essas características podem ser mais proeminentes nas pessoas com depressão tardia”, relaciona. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), pelo menos seis a cada 100 pessoas, entre 65 e 74 anos, serão diagnosticadas com depressão.
Análises
Foram estudadas amostras sanguíneas de 50 pessoas, das quais 19 tinham diagnóstico de depressão tardia. A análise mostrou diferenças significativas na concentração de 96 proteínas. Entre elas, 75 são candidatas para a determinação de uma identidade molecular para a doença geriátrica.
“A gente conseguiu achar o que nós chamamos de uma assinatura molecular. Ou seja, nós identificamos algumas moléculas no sangue que teriam esse poder de distinguir quem tem a depressão e quem não tem”, pontuou Martins-de-Souza.
As próximas etapas do estudo envolvem a coleta de novas amostras dessa população. A ideia é “quantificar especificamente estas 75 proteínas para ver se a gente consegue replicar esses dados”, explica o coordenador.
Além disso, a doutoranda Lícia Silva-Costa, do Laboratório de Neuroproteômica da Unicamp e uma das autoras do estudo, identificou seis proteínas que tem uma correlação a severidade dos sintomas. “Também pode ser uma marcação para predizer que uma pessoa vai ter uma piora muito grande de sintomas, o que poderia ser previamente tratado”, acrescenta o professor. A proposta agora é também validar essas informações com novas amostras.
Por - Agência Brasil
Pacientes com câncer de mama podem contar com o medicamento Trastuzumabe Entansina. Indicado em monoterapia - método em que o processo de tratamento é realizado utilizando apenas uma droga ou procedimento - para tratamento de pacientes classificados no nível HER2-positivo da doença.
A Portaria que incorpora o medicamento ao Sistema Único de Saúde (SUS) foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) da última segunda-feira (12).
“A tecnologia recebeu recomendação favorável de incorporação ao Sistema Único de Saúde SUS após passar por avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), responsável por assessorar a pasta nas atribuições relativas à incorporação, exclusão ou alteração de tecnologias em saúde pelo SUS”, informou o ministério.
Números
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2018, mais de 620 mil mulheres morreram de câncer de mama em todo o mundo. No Brasil, o número total de novos diagnósticos ao ano chega a 60 mil, resultando em uma taxa de incidência de 60/100 mil habitantes.
Em 2017, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) reportou 16.724 mortes em mulheres. No ano de 2018, o Brasil foi o quarto país com a maior incidência em câncer de mama e o quinto em mortalidade. Estima-se que a incidência entre as brasileiras nos próximos 20 anos terá um aumento de 47%, diz OMS.
Por - Agência Brasil
Quando tinha 10 anos, Karina Okajima Fukumitsu descobriu o que era suicídio da pior forma.
Chegando da escola, percebeu o silêncio em casa e viu uma porta trancada: a do quarto materno. Começava ali uma saga que ela e a irmã, dois anos mais velha, precisaram encarar sem qualquer preparo. Foram 18 internações da mãe na UTI depois de tentativas frustradas de se matar, que marcariam a vida da família para sempre.
Hoje com 51 anos e formada em psicologia, Fukumitsu enfrenta outro desafio enorme, o de levantar o véu de silêncio sobre o tema. Como suicidologista, ela ajuda pessoas que vivem o luto por suicídio de um parente ou amigo. Criou uma associação — a Se Tem Vida, Tem Jeito — e implementa ações em escolas marcadas pelo trauma.
— Sempre acreditei que o luto por suicídio é diferente de todos os outros — diz.
A experiência com a mãe — que morreu anos depois, de doença cardíaca — inspirou uma longa carreira dedicada ao tema. Hoje a pós-doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) coordena uma pós-graduação em suicidologia na Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), apresenta o podcast "Se tem vida, tem jeito” e comanda a associação com mesmo nome.
A seguir, a especialista explica como funciona a pósvenção, termo para designar o acolhimento desse luto revestido de culpa e tabu.
Amigos e família
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), o ato de um suicida deixa rastros profundos em cinco a seis pessoas no seu entorno. Porém, uma pesquisa da organização americana National Action Alliance for Suicide Prevention traz um número mais impressionante: 115 impactados. Desses, 53 afirmam que a vida foi interrompida por um curto período. Outras 11 relataram que o ato teve um efeito devastador em sua existência.
Pesquisadores dizem que os próprios enlutados entram nos grupos de vulnerabilidade depois do trauma, por conta de sentimentos de impotência e falta de sentido.
O manto do silêncio
Nos círculos sociais daqueles que se matam, a culpa e a vergonha são sentimentos comuns. Há ainda a ocultação. Eles acreditam que não se referir ao ato (às vezes sequer mencionar o nome da vítima) ajuda a driblar o sofrimento. O trabalho de pósvenção vai na direção contrária, de abrir espaços para que os sentimentos apareçam.
— O sofrimento tamponado provoca um efeito panela de pressão. Um dos antídotos para o luto é a revolta. Costumo perguntar ao enlutado onde está seu poder de indignação para comunicar o que está fazendo mal — afirma.
Outro erro é achar que é possível voltar a ser quem se era antes daquela morte. Como qualquer evento traumático, o suicídio deixa marcas. E retomar a produtividade para “tapar esse buraco” apenas adia a confrontação dessas chagas.
Relação com transtornos
Segundo uma crença difundida, 90% dos casos de suicídio são evitáveis. Para Fukumitsu, esse lugar-comum é um erro de interpretação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que uma das formas de se prevenir o ato é ampliar o acesso à saúde, e que grande parte dos suicidas sofre de transtornos mentais. É verdade, mas apenas em parte.
— Há uma relação, e tratar transtornos mentais reduz a chance de alguém tentar o suicídio. Mas dizer que ele é evitável é uma onipotência que cria um sentimento de culpa enorme nos enlutados. Se poderiam ter evitado aquilo, por que não o fizeram? Precisamos tentar evitar simplificações — alerta.
Os quatro Ds
A Associação Brasileira de Psiquiatria lista quatro Ds como as principais causas da tentativa de suicídio: desespero, desamparo, desesperança e depressão.
A frase mais famosa sobre o tema foi cunhada pelo psicólogo americano Edwin Shneidman: “O suicídio é uma solução permanente para um problema temporário”. Fukumitsu gosta de definir o ato como fruto de “um tsunami existencial, o ápice do processo de morrência”. Na sua visão, o quadro é complexo e multifatorial, nem sempre associado a transtornos.
— São processos autodestrutivos que podem acontecer com qualquer um se não estivermos vigilantes — diz.
Portanto, pensar em eventos como bullying, demissão ou término de relacionamento em termos de “culpados” é reducionista.
A OMS lista três características do comportamento suicida:
- a ambivalência, quando a pessoa não quer morrer mas quer matar o que está provocando o sofrimento;
- a impulsividade, quando a pessoa tem o rompante de atuar sobre o desespero;
- o pensamento enrijecido, característico das pessoas de extremos ("tudo ou nada", "nunca ou sempre", "vida ou morte"), que sempre querem fazer as coisas sempre do próprio jeito.
Grupos vulneráveis
Além dos transtornos mentais como a depressão, sofrer outros tipos de marginalização social põe alguns grupos em posição de atenção nas estatísticas de suicídio. Pessoas LBTQIAP+, negros, indígenas, vítimas de abuso sexual e emocional, dependentes químicos, todos têm risco aumentado para processos autodestrutivos.
— Eu não falo em minorias, prefiro dizer que são grupos de vulnerabilidade, pessoas que de alguma forma se sentem ofendidos e marcados — diz a psicóloga.
Em uma das definições usadas por Fukumitsu, o suicídio é o "ato de comunicação, de uma dor sentida e não consentida". Portanto, o caminho para diminuir esse abismo social das pessoas vulnerabilizadas é oferecer canais de fala e escuta.
Numa das tentativas frustradas da mãe de se matar, a futura psicóloga entreouviu um enfermeiro aconselhar a paciente a “tentar da próxima vez de um jeito mais efetivo” para não dar mais trabalho às equipes.
Depois, já formada, vivia com medo de que um paciente manifestasse esse desejo.
— Eu não tinha recebido nenhuma habilitação na faculdade para conduzir o manejo de uma pessoa em intenso sofrimento existencial, que é como percebo o suicídio. Fui galgando a vida acadêmica para poder hoje coordenar uma pós-graduação em suicidologia. Queria mudar esse cenário — conta.
Estigmas
Quando decidiu se especializar em suicidologia, Fukumitsu notou que havia resistência no meio acadêmico.
— Diziam que eu ia mexer num vespeiro, que ninguém queria falar disso — lembra.
Hoje, no seu canal do YouTube, ela abre espaço para levar a discussão para mais gente, mas dificilmente consegue monetizar os vídeos por conta do tema considerado espinhoso. Os simpósios que promove também não costumam ter patrocínio.
Parte do tabu em torno do tema tem a ver com a ideia consagrada de morte como o único evento das nossas vidas que somos incapazes de controlar, explica:
— Todo mundo nasce sabendo que um dia vai morrer. É como se a gente tivesse uma senha, sem a informação de quando ela vai ser chamada. O suicida é aquele que fura a fila. Isso provoca muita raiva e indignação.
Grupos de apoio
Desde 2019, o Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, promove encontros de enlutados por suicídio mediados por profissionais de saúde. As sessões acontecem toda última terça-feira do mês, por videoconferência. São cerca de 130 inscritos por evento.
Trabalho com escolas
O trabalho da psicóloga hoje inclui a assistência a escolas onde houve episódios de suicídio. Um dos ensinamentos de Fukumitsu é que qualquer iniciativa de evidenciar a vítima com homenagens deve se enquadrar em um contexto maior de abordagens sobre o luto por qualquer causa. Chamar atenção para aquela morte isoladamente traz o risco de romantizar o ato.
Efeito Werther
Em 1774, o escritor alemão Johann Wolfgang Goethe publicou "Os sofrimentos do jovem Werther", sobre um homem que se mata por viver um amor impossível. O livro supostamente motivou uma onda de atos inspirados na trama pela Europa, um fenômeno que é referido até hoje como "efeito Werther". A tese é de que o suicídio pode provocar uma onda de contágio, uma crença que faz com que a comunicação de casos pela imprensa ainda seja tratada com cuidado.
Para a especialista, a cautela se justifica. Porém, não deve se transformar em silenciamento:
— O problema não é falar, é como falar. É o tipo de notícia que a gente tem que ser cuidadoso. Você pode dizer que foi suicídio, mas não precisa revelar o método. Nunca vai publicar uma foto, entrevistar os vizinhos. Em que isso vai ajudar alguém? O enlutado vai ficar com aquela marca — explica a psicóloga, acrescentando que a possibilidade de "contágio" acontece quando existe uma espetacularização do caso — Pode afetar aqueles que já estão muito sensíveis, machucados, vulneráveis, que podem pensar "bom, quem sabe eu seja visto agora".
Pergunta em aberto
No trabalho de pósvenção, a psicóloga costuma dizer aos enlutados que "a verdade vai embora com aquele que se matou". O resto é elucubração de quem fica.
— O suicídio nos coloca num lugar de impotência. Faz com que a gente olhe pra nossa própria falta de sentido. Vivemos numa sociedade em que temos que saber tudo, dar conta de tudo. Como você vai lidar com o não saber? Todo mundo acha que sabe o motivo da morte por suicídio, mas isso é desrespeitoso — define.
No seu próprio trabalho, aprendeu a lidar com as limitações do que é capaz de mudar:
— Uns anos atrás descobri que a terminologia do salva vidas mudou. Hoje ele é chamado de guarda vidas. Essa é a metáfora que eu quero adotar na minha postura como suicidologista. Eu não vou salvar ninguém, vou ser guardiã da vida. Quero levar esperança, buscar uma linguagem de respeito.
Por - O Globo