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Novas 'canetas para músculos' prometem combater perda de massa e envelhecimento; entenda

Novas 'canetas para músculos' prometem combater perda de massa e envelhecimento; entenda

O nome do ácido L-β-aminoisobutírico (L-BAIBA) chega a assustar, mas sua ação encanta. Ele é o mais novo integrante da lista de potenciais e inéditos medicamentos para desenvolver músculos, sem os efeitos colaterais de esteroides anabolizantes. Essas drogas têm potencial para promover uma revolução farmacêutica similar à das canetas emagrecedoras.

Esses medicamentos acenam com a promessa de amenizar os efeitos do envelhecimento, o principal fator de perda de massa muscular, e melhorar a qualidade de vida de uma população que vive cada vez mais. Conservar os músculos não apenas evita a fragilidade física, mas melhora a saúde metabólica e reduz a idade biológica.

Além disso, essas novas canetas para músculos ajudarão gente que emagreceu e “derreteu” com as canetas emagrecedoras. E também pessoas que sofrem de sarcopenia (perda de massa e força muscular) por obesidade, sedentarismo, diabetes e câncer, por exemplo.

Felipe Henning Gaia, chefe do Serviço de Endocrinologia Oncológica do Centro de Câncer A.C. Camargo e presidente da Regional São Paulo da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, afirma que a chegada desses medicamentos será bem-vinda.

— Temos uma sociedade que envelhece e precisa ser manter saudável, ativa e independente. Preservar os músculos é essencial. O corpo humano não acompanha o progresso científico que nos fez viver mais. Atividade física seguirá fundamental, mas drogas podem ajudar a evitar a perda de músculos, essenciais para a longevidade saudável — destaca Gaia.

Em um século, um piscar de olhos em escala evolutiva, o ser humano mais que dobrou a expectativa de vida. Em 1925, ela era de apenas 36 anos. Mas graças à melhoria do saneamento, da alimentação e de medicamentos chegou a 82 anos (dado do Brasil) em 2025.

Porém, viver mais tem um custo elevado e boa parte dessa conta é paga em músculos.

— As mulheres sofrem perdas hormonais ligadas à menopausa que reduzem ainda mais a massa muscular. Por isso, drogas assim são importantes — afirma Gaia.

Essas drogas serão úteis para minimizar as perdas associadas à idade, ao emagrecimento acentuado, mas não farão milagres, afirma Clayton Macedo, coordenador do Ambulatório de Endocrinologia do Exercício da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da diretoria da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

— Elas trazem a possibilidade evitar perdas grandes. Mas não são para ganho extra de massa muscular. Não serão uma bala de prata — salienta Macedo.

Especialista em fisiologia muscular, Tiago Fernandes, do Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular do Exercício da Universidade de São Paulo (USP), diz que essas drogas poderão ser revolucionárias, se usadas adequadamente.

Quantos medicamentos há em desenvolvimento?

Com base nas principais bases de dados de ensaios clínicos, como ClinicalTrials.gov e PubMed, há no mundo centenas de testes (esse número varia) de pelo menos 40 substâncias candidatas a drogas em diferentes graus pesquisa.

Essas drogas funcionam como a testosterona e outros anabolizantes?

Não. Nenhuma delas é um hormônio esteroide anabolizante, como as formas sintéticas de testosterona usadas como “bomba” para crescer músculos ao custo de pesados efeitos colaterais, sobretudo, para coração e fígado.

E como atuam?

Há várias estratégias. Entre as mais avançadas estão as que atuam bloqueando a miostatina e a activina. A miostatina é uma proteína natural que age como um “freio”, impedindo o crescimento exagerado dos músculos. Quando desregulada, por alterações metabólicas, falta de atividade física e envelhecimento, seu excesso leva à sarcopenia. Candidatas a drogas bloqueiam esse freio ou “enganam” seu receptor nas células pondo em seu lugar uma substância inócua.

Já a activina é uma “prima” da miostatina. Também restringe o crescimento muscular e, quando bloqueada, permite regeneração significativa da massa muscular, o que a torna outro alvo terapêutico em desenvolvimento.

E o que são essas drogas?

Essas drogas são, em sua maioria, anticorpos monoclonais, isto é, com alvos específicos. Os mais avançados em testes com voluntários são Apitegromab (Scholar Rock), Bimagrumab (Eli Lilly) e Trevogrumab (Regeneron).

Clayton Macedo observa que, usadas sozinhas, essas drogas não têm demonstrado um efeito significativo para aumentar massa magra. Porém, quando combinadas com as canetas emagrecedoras (agonistas de GLP-1, GIP e glucagon), conseguem minimizar a perda de músculos. Mas ele adverte que são necessários mais estudos para ter certeza.

Esses medicamentos serão canetas?

Provavelmente, sim. Em testes têm sido administrados por injeções. Mas o formato final para chegar ao mercado deve ser por canetas aplicadoras. A forma oral não é adequada porque esses anticorpos monoclonais são proteínas grandes. Se fossem engolidos, o estômago os destruiria como se fossem uma comida.

Quando essas drogas devem chegar?

Segundo Felipe Gaia, as drogas mais avançadas, se liberadas nos EUA, podem chegar ao Brasil em 2028 ou 2029. As mais adiantadas, em fase 3 de testes com seres humanos, são Apitegromab e Bimagrumab.

A FDA americana deve informar até 30 de setembro se dá o sinal verde para o Apitegrumab. Em caso positivo, poderá ser comercializado nos EUA no fim deste ano ou no início de 2027. A autorização é para tratamento de atrofia muscular espinhal. Porém, o uso “offlabel” é previsível. O laboratório Scholar Rock busca parcerias para realizar teste de fase 3 para preservação e recuperação de massa muscular associada à perda de peso se usado em combinação com a tirzepatida (Mounjaro). Já Bimagrumab passou em fase 2, caso passe no 3, poderia chegar ao mercado em 2029.

E que outras estratégias existem?

O L-BAIBA, por exemplo, pertence a outra classe de substâncias. Ele é uma molécula-chave liberada durante o exercício. Seu papel é regular o mecanismo pelo qual os músculos se remodelam, fortalecem e melhoram sua resistência em resposta ao treinamento. Num estudo publicado em 18 de agosto na Nature Communications, cientistas da Universidade de Leeds (Reino Unido) disseram que pode ser também um tratamento para danos musculares causados pelo diabetes tipo 2. A pesquisa contou ainda com cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e de Harvard.

Uma outra estratégia é a terapia gênica com folistatina, uma proteína produzida naturalmente pelo corpo humano que atua bloqueando a miostatina e a activina. No entanto, a folistatina é instável e dura pouco no sangue. A terapia gênica foi a saída encontrada para que o próprio corpo do paciente passe a fabricá-la continuamente. O gene da folistatina é “entregue” diretamente nas células por meio de um vírus inócuo.

Ganhar só volume não adianta?

Não. O educador físico e médico Ricardo Sartorato explica que não adianta ganhar somente massa muscular. O músculo precisa funcionar. E o ganho de função e força é multifatorial. Ele depende tanto de adaptações neurais quanto do tamanho do músculo. A força e a função musculares estão relacionadas à coordenação inter e intramuscular dos neurônios com os músculos e isso não se traduz em tamanho. O ganho de massa funciona como o limite para a força máxima a longo prazo: um músculo maior tem mais capacidade para gerar força. Mas a qualidade da função muscular é fundamental. É por isso que atletas de levantamento de peso olímpico de categorias de leves ou praticantes de calistenia conseguem produzir níveis de força e potência brutais sem apresentarem o volume muscular hipertrofiado de um bodybuilder.

Há exceções?

Para a maioria dos casos, não. No entanto, Ana Carolina Panveloski Salomão, fisioterapeuta doutora em fisiologia humana, diz que para certos pacientes com sarcopenia grave ou imobilizados por doença ou acidentes, um fármaco que preserve a massa muscular, mesmo que não melhore a função, já fará diferença. O remédio poderia ser associado a outros tratamentos, como estimulação elétrica da função. Salomão liderou estudos com uma terapia de RNA para tratar sarcopenia e a caquexia (destruição muscular associada ao câncer) desenvolvida pela empresa Mirscience e apoiada pela Fapesp.

E o uso estético ou de performance?

Felipe Gaia diz não ter dúvida de que isso acontecerá, assim como ocorre com as canetas emagrecedoras. Ele frisa que esse uso não é recomendado porque, como qualquer medicamento, estes foram criados para tratar disfunções e podem ser nocivos quando estas não existem.

Quais são os obstáculos ao desenvolvimento dessas drogas?

Muitas drogas que alcançam aumento visível da massa muscular acabam descontinuadas em fases avançadas de testes devido à falta de ganho de força/função real ou por efeitos colaterais (como alterações vasculares), fazendo com que a lista de candidatos em teste mude constantemente.

Segundo Clayton Macedo, os efeitos adversos das drogas que atuam sobre a miostatina e a activina ainda precisam ser melhor conhecidos. Os mais comuns são espasmos e contração muscular involuntária, além de diarreia, acne, erupções cutâneas. Aparentemente, não houve alteração cardíaca clinicamente significativa.

Embora a inibição da miostatina promova hipertrofia muscular, seus efeitos em longo prazo suscitam preocupações. O crescimento muscular excessivo pode prejudicar a regulação metabólica, reduzir a densidade capilar e aumentar a fibrose, comprometendo potencialmente a função muscular em vez de aprimorá-la.

Além disso, alterações na sinalização da miostatina afetam a estrutura e as propriedades mecânicas dos tendões, aumentando o risco de lesões devido ao desequilíbrio na produção de força muscular. A regulação da miostatina atua como uma espada de dois gumes, na qual tanto sua inibição excessiva quanto sua superexpressão podem causar danos.

Essas drogas poderão substituir a atividade física?

Especialistas são unânimes em responder com um contundente não a essa pergunta. O motivo é simples. É a atividade física que “liga” os músculos e os faz liberarem substâncias essenciais para o organismo. Drogas podem aumentar o volume, mas isto apenas não resolve. Elas precisam do exercício para funcionar.

— O exercício é fundamental para ativar os músculos — salienta a geneticista Mayana Zatz, professora do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), referência em estudo da longevidade. 

Tiago Fernandes destaca que essas drogas não são “pílulas do exercício”.

— Elas poderão ajudar. Mas o corpo precisa de movimento e somente a atividade física promove mecanismos essenciais. Droga alguma chega perto da complexidade de mecanismos deflagrados pelo exercício — diz Fernandes.

 

 

 

 

 

Por - O Globo

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