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Em aceno às mulheres, presidenciáveis reforçam propostas e ajustam discurso para reduzir resistências

Em aceno às mulheres, presidenciáveis reforçam propostas e ajustam discurso para reduzir resistências

Tentando atrair uma parcela da população que representa mais da metade do eleitorado, pré-candidatos à Presidência ampliaram os acenos às mulheres.

Em busca da reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aumentou a divulgação de medidas voltadas ao segmento, mas lida com críticas pela falta de avanços concretos durante a gestão. Do lado da oposição, em meio à crise com a madrasta, Michelle Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tenta reduzir a resistência com novas propostas e procura uma vice mulher. Já Ronaldo Caiado (PSD) concentra acenos na área da segurança pública, enquanto Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) buscam um tom para fisgar o voto feminino.

As eleitoras somam 52,47% do total, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas ainda são minoria como representantes em cargos eletivos. Há um ano, Lula passou a incluir em praticamente todas as suas falas públicas o combate à violência contra a mulher. Na quinta-feira, por exemplo, defendeu aumento de pena para homens que matam mulheres.

A estratégia da campanha petista será mostrar os esforços do governo para redução da violência doméstica, as ações de igualdade salarial e aumento nos serviços pelo Sistema Único de Saúde na linha de cuidados, sempre comparando o tratamento dado às mulheres na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Segundo a pesquisa Quaest mais recente, 35% das mulheres se declaram antibolsonaristas, enquanto 25% são antipetistas.

O levantamento de junho também mostra que o índice de mulheres que aprova o governo cresceu de 45% para 49% entre abril e o mês da pesquisa. Agora, o objetivo do governo é manter esse percentual em crescimento e tentar transformá-lo em votos.

 

Disputa pelas indecisas

Na campanha de Lula, há uma percepção de que é fundamental o petista continuar com o apoio feminino, em especial nas classes C, D e E. A campanha também espera que a briga entre Flávio e Michelle empurre candidatas indecisas para o campo lulista.

— Todas as políticas construídas pelos governos do PT trataram diretamente da vida concreta das mulheres — afirma a vereadora de São Paulo Luna Zarattini (PT), integrante da coordenação da campanha.

Apesar do discurso, o Ministério das Mulheres não teve destaque durante o terceiro mandato de Lula nem elaborou políticas que ganhassem tração. O desempenho provocou a troca de Cida Gonçalves por Márcia Lopes em maio de 2025. A nova ministra tem focado no reforço de políticas de combate à violência de gênero.

Sob o governo Lula, o país registrou o primeiro trimestre mais letal contra as mulheres desde 2015. Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, foram 399 vítimas de feminicídio entre janeiro e março. Ou seja, uma mulher é vítima de feminicídio no Brasil a cada 5 horas e 25 minutos.

Para direcionar mais ações para o segmento, Lula ampliou a participação feminina no núcleo que comanda a campanha, na comparação com 2022. Entre as integrantes do grupo decisório estão Luna Zarattini, a Secretária Nacional de Mulheres do PT, Mazé Morais, Lucinha do MST e a secretária de Juventude do PT, Júlia Köpf.

Ainda sem papel definido, a primeira-dama Janja da Silva também vai atuar nas discussões sobre o tema. Na terça-feira, ela rebateu, sem citar diretamente, a fala do blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo, que afirmou que mulheres “votam muito mal”.

Já no campo oposto, a avaliação de integrantes da pré-campanha de Flávio, que tentou se desvencilhar da declaração do aliado, é que a segurança pública continuará no centro do discurso eleitoral, mas, sozinha, não será suficiente para ampliar sua competitividade entre as mulheres.

A estratégia passou a combinar o endurecimento no combate à criminalidade com propostas voltadas à autonomia financeira, à geração de renda e ao reconhecimento do trabalho de cuidado, temas que, segundo aliados, aparecem de forma recorrente nas pesquisas qualitativas.

A urgência de Flávio em montar uma plataforma para o segmento aumentou após a crise pública envolvendo Michelle, que gravou um vídeo se dizendo “humilhada” pelo enteado, em meio à disputa política sobre palanques no Ceará.

No entorno do senador, a avaliação é que o episódio tornou ainda mais evidente a necessidade de construir uma agenda positiva. O cenário piorou após a fala de Paulo Figueiredo, e aliados reconhecem que a declaração freou um esforço para alcançar um público hoje, em grande parte, refratário ao pré-candidato. Ao abrir, na semana passada, o encontro com mulheres da campanha, o senador procurou reconhecer a dificuldade com o público feminino e assumiu para si a responsabilidade por esse cenário.

Parte do esforço para mudar o quadro está em um programa coordenado pela ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques. A plataforma reúne propostas de combate à violência doméstica, incentivo ao empreendedorismo feminino, ampliação do acesso ao microcrédito e políticas ligadas à economia do cuidado.

— Queremos ouvir as contribuições e práticas das vivências delas — afirmou Daniella.

 

Outros presidenciáveis

Nas últimas semanas, o senador passou a defender com mais frequência a escolha de uma mulher para compor sua chapa presidencial. Entre os nomes lembrados por aliados estão a própria Daniella, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e as deputadas Bia Kicis (PL-DF) e Simone Marquetto (PP-SP), embora nenhuma delas confirme ter recebido convite.

Entre os demais presidenciáveis, a pré-campanha de Caiado passou a veicular inserções na televisão dedicadas ao combate à violência doméstica e ao feminicídio, nas quais ele afirma que “quando esses criminosos são agressores de mulheres, tenho ainda mais mão pesada”. O discurso também tem sido repetido em agendas públicas. Caiado costuma afirmar que “em briga de marido e mulher, mete algema”.

A estratégia, no entanto, não foi acompanhada por uma maior participação feminina na construção da chapa presidencial. Durante meses, aliados discutiram a possibilidade de indicar uma mulher para a vaga de vice, mas Caiado acabou escolhendo o presidente do PSD, Gilberto Kassab.

No caso de Romeu Zema (Novo), a campanha afirma que não pretende lançar um programa específico voltado às mulheres. A estratégia será tratar temas considerados prioritários para esse público dentro do programa geral de governo, sem criar uma plataforma segmentada. A avaliação é que as principais demandas do eleitorado feminino passam por segurança pública, emprego, renda, educação e acesso a creches.

O pré-candidato do Missão, Renan Santos, também afirma que não pretende construir uma campanha baseada em acenos específicos ao eleitorado feminino, mas em propostas que, segundo ele, respondem a problemas concretos enfrentados por elas. A estratégia concentra-se em temas como endurecimento das penas para casos de violência doméstica, combate ao abandono parental, ampliação da oferta de escolas em tempo integral e medidas para garantir o pagamento de pensão alimentícia, especialmente voltadas às mães solo.

 

 

 

 

Por - O Globo

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