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El Niño Ameaça Safras e Deve Pressionar os Preços dos Alimentos

El Niño Ameaça Safras e Deve Pressionar os Preços dos Alimentos

Especialistas do setor agropecuário alertam que o fenômeno climático El Niño pode comprometer a produção de diversos alimentos essenciais, gerando impacto direto nos preços praticados no varejo brasileiro nos próximos meses.

A elevação dos custos deve se refletir especialmente em itens como café, milho, frutas, hortaliças, cana-de-açúcar e derivados do leite.

O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Pacífico, altera os regimes de chuva e temperatura em diferentes regiões produtoras do país, podendo provocar estiagens em algumas áreas e precipitações excessivas em outras. De acordo com projeções de centros climáticos internacionais, há mais de 60% de probabilidade de que o evento atinja intensidade significativa entre novembro e janeiro.

 

Hortaliças e Frutas na Linha de Frente

Os primeiros reflexos deverão ser percebidos nas hortaliças, culturas extremamente sensíveis a variações climáticas. Produtos como cebola, batata, tomate e cenoura tendem a sofrer com o excesso de umidade na região Sul, onde as chuvas volumosas podem provocar apodrecimento e perda de qualidade. A produção de maçã e uva também preocupa, especialmente no Rio Grande do Sul, onde as condições adversas podem afetar a floração e favorecer o surgimento de doenças.

No polo citrícola paulista, as temperaturas elevadas previstas para o período de floração dos laranjais (setembro a novembro) podem resultar em abortamento de flores e queda prematura de frutos jovens, comprometendo uma safra que já enfrentava desafios relacionados à baixa rentabilidade e incidência de pragas. O mercado internacional já observa essa tendência com apreensão, o que pode elevar os preços do suco e reduzir a qualidade da fruta disponível.

 

Café em Alerta

O setor cafeeiro, que iniciara o ano com perspectivas otimistas de safra recorde superior a 66 milhões de sacas, agora enfrenta incertezas. As chuvas irregulares registradas em regiões produtoras já atrasaram a colheita do café conilon, afetando a qualidade e a produtividade, além de criar ambiente favorável para fungos e pragas.

Para o café arábica, mais sensível a condições de estresse, o cenário é ainda mais delicado. A irregularidade hídrica e as altas temperaturas comprometem a uniformidade da florada, podendo resultar em grãos menores e perda da qualidade final do produto. O mercado internacional, atento aos baixos níveis de estoques, já reage com especulações que pressionam os preços da matéria-prima.

 

Milho e Carnes: Efeito Cascata

O milho, componente fundamental da ração animal, deverá sentir os efeitos do El Niño principalmente na segunda safra do Centro-Oeste. O atraso no plantio da soja, causado por chuvas irregulares, reduz a janela ideal para o cultivo do milho, levando muitos produtores a diminuir áreas plantadas ou substituir o grão por culturas alternativas como o sorgo.

A redução na oferta do grão impacta diretamente os custos da pecuária. A carne bovina e o leite tendem a encarecer, uma vez que a ração fica mais cara e a disponibilidade de pastagens diminui nas regiões Centro-Oeste e Norte, onde a falta de água compromete o desenvolvimento das forragens. O estresse térmico causado pelo calor excessivo também reduz o apetite e o ganho de peso dos animais.

 

Cana-de-açúcar sob Pressão

Na região Centro-Sul, responsável por cerca de 90% da moagem nacional, as chuvas fora de época podem atrasar o acúmulo de sacarose na cana, reduzindo a qualidade da matéria-prima e forçando colheitas antes do ponto ideal de maturação. Nas áreas do Norte e Nordeste, a combinação de seca e calor extremo gera estresse hídrico que compromete o desenvolvimento das plantações.

 

Panorama Regional e Perspectivas

Embora o cenário geral seja de preocupação, algumas regiões podem ser beneficiadas. No Nordeste, o clima mais seco e as temperaturas elevadas favorecem culturas como feijão, melão e melancia em áreas irrigadas. Na região Sul, as chuvas acima da média podem beneficiar as culturas de inverno, desde que não ocorram em excesso.

A expectativa de inflação alimentar já levou o governo federal a revisar para cima as projeções oficiais para o índice de preços do próximo ano. A estimativa inicial, que era de 4,5%, deverá ser elevada diante das adversidades climáticas anunciadas.

 

Incertezas e Adaptação

A intensidade exata dos impactos ainda depende da evolução do fenômeno nos próximos meses. O setor produtivo já adota estratégias de mitigação, como o ajuste de calendários de plantio e a escolha de variedades mais resistentes, mas reconhece que as perdas são inevitáveis em alguns segmentos.

Produtores e consumidores devem se preparar para um período de maior volatilidade nos preços, especialmente a partir do início de 2027, quando os efeitos do El Niño sobre as safras se tornarem mais evidentes. A diversificação de fontes de abastecimento e o monitoramento constante das condições climáticas serão fundamentais para minimizar os impactos sobre a mesa do brasileiro.

 

 

SICREDI 02