Pede desculpas quando não teve culpa? Cuidado, você pode ser vítima de Darvo

Ouvir com frequência que estava errada, sendo dramática ou tendo reações exageradas para, em seguida, pedir desculpas, tornou-se rotina no relacionamento de dois anos da estudante de psicologia Ana Lucia Martini, de 39.
O ex-companheiro, relembra, criticava quase todas as atitudes da então namorada, a ponto de fazê-la buscar terapia. “Ele me questionava, e quando eu apontava algo que me incomodava, dizia não ter feito ou que eu tinha entendido errado.” Mas uma festa de Halloween, ironicamente, foi determinante para Ana Lucia perceber que nunca foi a “bruxa” da história. “O pai dele estava doente, internado na UTI, e ainda assim ele quis ir na tal festa. Chegando lá, não me apresentou aos amigos, fiquei sentada sozinha em um canto. Depois, ainda mexeu com algumas mulheres. Achei um absurdo, senti-me desrespeitada”, conta.
Ao confrontá-lo, mais uma vez, recebeu um ataque como resposta. “Disse-me que estava brincando, e que eu era chata e dramática. No dia seguinte, o pai dele faleceu, e ele inverteu a situação, dizendo que eu não o respeitava. Ainda me senti muito culpada.” Após dois meses do término do namoro, e digerindo tudo o que passou, a estudante encontrou traços narcisistas no ex. “Ele odeia os pais, os irmãos, é extremamente difícil de lidar. Mas é amado por muita gente. Se eu contar essa história para os amigos dele, vão dizer que estou louca. Louca, aliás, era o meu segundo nome.”
A manipulação nos relacionamentos afetivos está longe de ser uma novidade, mas nas redes a técnica ganhou um novo nome: Darvo. A sigla em inglês para deny (negar), attack (atacar), e reverse victim and offender (inverter vítima e ofensor) é uma estratégia usada por abusadores para evitar a responsabilização por seus atos. Ou seja, eles negam o abuso, atacam seu alvo quando se sentem confrontados e, então, invertem os papéis, transformando-se em vítimas.
O termo, criado pela psicóloga de traumas norte-americana Jennifer Freyd na década de 1990, é bem semelhante ao gaslighting; a diferença é que, neste, quem sofre tem a sanidade mental colocada em xeque. “Você se questiona: ‘será que aconteceu isso mesmo?’ No Darvo, além de duvidar de si, a vítima é obrigada a enfrentar acusações. E vai sentir culpa porque é colocada como o vilã da história”, explica o psicólogo clínico Luiz Reis. Quem pratica o Darvo, continua ele, raramente vê algo problemático na situação. “Se for um narcisista, ele é perfeito, nunca erra. Agora, se é alguém com um desvio de caráter ou outro transtorno, também não quer ser pego, nem encarar as próprias atitudes.”
A empresária musical Maria Emilia Pimentel, de 51 anos, enfrentou, por semanas a fio, a insistência do ex-marido para que tivessem relações sexuais todos os dias. Cansada das demandas do trabalho e do serviço doméstico, sentia-se mal ao dizer “não”. “Ele me chamava de frígida. Tudo era um problema.
Se fazia de coitado porque eu não compreendia as necessidades dele”, afirma. A situação ultrapassou os limites do quarto e se espalhou para outras atividades do dia a dia. “Até mesmo se o arroz queimasse na panela a culpa era minha, porque eu não o estava ajudando a olhar.” Já a artista plástica Sandra*, de 48 anos (*nome fictício, a pedido da entrevistada) viveu diversas situações de abuso durante o casamento de mais de duas décadas. “Ele me traiu, eu o via flertar, e o jogo se invertia. Ele dizia que eu estava vendo coisas, sendo ciumenta, sufocando-o. Fui muito desvalorizada, adoeci. Eu sentia que era a errada da relação”, relembra Sandra.
Segundo a psicóloga e professora Tatiana Paranaguá, o perfil mais suscetível a se deixar envolver por quem pratica o Darvo são pessoas sensíveis, com baixa autoestima e dificuldades para finalizar relações. “Observo também quem tem um histórico emocional familiar mais frágil. Na maioria dos casos, quem vive nessa dinâmica é minado, torna-se dependente e fraco. E o próprio predador também cria uma dependência da vítima”, afirma ela. “O algoz não enxerga seus defeitos e utiliza o outro como uma parede de projeção das coisas que ele sente, pensa e faz, mas não tem uma estrutura forte para lidar com essa sombra.”
Para sair dessa, o psicólogo Luiz Reis diz que o primeiro passo é se informar o máximo possível sobre o assunto e, a partir disso, buscar ajuda. “O abusador isola a pessoa fazendo-a se manter em uma realidade distorcida. E isso não para no Darvo. Acontecem outros mecanismos de dependência, como a financeira”, comenta. Por isso, é preciso trabalhar com o terapeuta essa reestruturação cognitiva. “Para que essa vítima volte a ter crenças mais realistas, não ache que o caos é o lugar seguro e tenha relações mais saudáveis”, finaliza Luiz.
Por - O Globo










-PortalCantu-29-03-2026_large.png)
-PortalCantu-29-03-2026_large.png)
-PortalCantu-28-03-2026_large.png)



_large.jpg)