Saúde & Beleza

Skincare no fim do mundo: como a indústria está se preparando para os climas extremos

Skincare no fim do mundo: como a indústria está se preparando para os climas extremos

O ano de 2026 deverá ser um dos mais quentes desde 1850, quando os registros de clima e temperatura começaram a ser feitos.

Se na escola aprendemos sobre o aquecimento global, hoje já falamos em ebulição. Em escala social, observamos alternâncias cada vez mais bruscas, como frio e calor extremos, estiagens fora de época, enchentes por volumes recorde de chuva, e populações sofrendo as consequências da instabilidade climática.

Um relatório da The Lancet Countdown mostra que a crise do clima não está apenas transformando o planeta, mas também ameaçando o bem-estar das pessoas. O grupo internacional é formado por médicos, cientistas e especialistas em políticas públicas, reunidos para monitorar e comunicar os impactos do clima sobre a saúde humana a partir de dados para fomentar o desenvolvimento de soluções. Entre 20 indicadores de saúde analisados, 13 deles já atingiram níveis críticos.

Evidentemente, em um primeiro momento, as atenções se voltam às condições de ameaça à vida, isto é, impactos do calor (ou do frio extremo) em quadros cardiovasculares, desidratação e condições respiratórias, além das faixas etárias mais sensíveis aos termômetros. Existem ainda os riscos imediatos e a longo prazo para o maior órgão do nosso corpo: a pele.

 

Outro mercado que deve registrar um crescimento significativo até 2035 é aquele voltado aos ingredientes antipoluição — resíduos suspensos no ar que, sabidamente, oferecem efeito oxidante na pele. De acordo com a Future Market Insights, a expectativa é que ele avance de US$ 2,1 bilhões em 2025 para US$ 4,5 bilhões em dez anos, muito impulsionado pelas preocupações ambientais e pela procura de cuidados que atenuem esses efeitos no nosso dia a dia.

 

O FUTURO É PRA JÁ

A influência do estado do clima na beleza já ganhou termo: "climate beauty" ou beleza climática. Ele começa a despontar nos relatórios de tendências globais. "As mudanças deixaram de ser um possível cenário futuro e passaram a exigir adaptações no presente. Pensamos em posturas e movimentos com viés de resiliência e não de espera. Hoje, já nos deparamos com projeções que indicam aumento próximo de 1,5 a 2°C nas próximas décadas. Com isso, tanto as posturas quanto os produtos precisarão responder a esse novo cenário de 'ecoansiedade', que acompanharemos em maior frequência daqui para frente", diz Natália Vargas, executiva de tendências da WGSN no Brasil.

Diante dessa demanda, os novos cosméticos precisam de ainda mais predicados. Um relatório de uma das maiores feiras de beleza do mundo, a Cosmoprof Asia, fala no crescimento de investimento em biotecnologia para desenvolver produtos que se relacionem de forma responsiva com o clima, ao passo que também oferecem o que a pele precisa, tratando esses efeitos.

Há muitos caminhos para isso. Um deles é buscar as lições na própria natureza. É o caso do sérum Age Proteom, da Esthederm, fruto de uma pesquisa que procurou nas bactérias extremófilas, microrganismos resistentes a climas adversos, o segredo da sobrevivência em condições extremas. Foram mais de 40 anos de pesquisa até chegarem às bacterioruberinas, um protetor de proteínas que garante a sobrevivência nessas situações. A tecnologia patenteada foi desenvolvida pelo farmacêutico Jean-Noël Thorel, fundador do NAOS, grupo ao qual a marca pertence, e pelo biólogo Miroslav Radman, e hoje também está no creme para a área dos olhos.

Em março deste ano, a Natura anunciou um aporte na Antarka, startup uruguaia de biotecnologia focada em longevidade da pele. A empresa também trabalha com enzimas de microrganismos adaptados às condições extremas, neste caso, na Antártica, capazes de reparar as células contra os danos da radiação UV. "A integração reduz pela metade o tempo de desenvolvimento de novos produtos, otimizando nossa transição da bancada para a prateleira. Diferentemente dos antioxidantes tradicionais, essa tecnologia oferece uma precisão biológica superior, interagindo com vias celulares específicas para reparar danos solares e promover a longevidade cutânea de forma profunda e eficaz", explica Manuel Rios, diretor executivo de P&D e Inovação da Natura. Ainda não há lançamentos com o uso dessa tecnologia.

Também em março, a francesa L'Oréal comunicou uma parceria estratégica com a nossa Universidade Federal de Itajubá (Unifei) para o projeto CLIMADERMA. A iniciativa científica vai investigar como as mudanças climáticas impactam as regiões da América Latina. Serão realizadas medições em cinco cidades brasileiras e três da América do Sul para a coleta de informações sobre radiação solar ultravioleta, poluição do ar, temperatura e umidade — fatores conhecidos pela aceleração de problemas, como o envelhecimento precoce, a sensibilidade e as manchas da pele, além da fragilidade capilar. A marca pretende usar os dados para acelerar as discussões sobre o impacto das mudanças climáticas na saúde e nas necessidades dos consumidores. "Estamos diante de uma transformação climática que impactará a saúde humana, o futuro da beleza e os cuidados pessoais. Estamos investindo em pesquisa de ponta para entender esses desafios e desenvolver soluções inovadoras que antecipem as necessidades futuras dos nossos consumidores globalmente", afirmou Cristina Garcia, diretora de Comunicação Científica e de Pesquisa Avançada do Grupo L’Oréal para a América Latina, no material divulgado para a imprensa.

FAÇA CHUVA OU FAÇA SOL

Os planos são excitantes, mas o futuro já começou. "Considerando o mundo mais quente, a beleza precisa se tornar resistente frente ao calor e oferecer possibilidade de resfriamento. Produtos capazes de gelar e à prova de suor serão fundamentais, e tendem a se consolidar como uma nova categoria de mercado", diz Natália. No Brasil, a The Joy Lab conta com o AquaPro Cooler Antioxidante, gel facial com efeito de resfriamento e proteção contra o envelhecimento precoce causado pelo sol. A Ricca também entregou o Spray Corporal Ice Mist, com tecnologia capaz de reduzir a sensação térmica da pele em até 6°C. Segundo a marca, ele cria uma névoa refrescante que ajuda a aliviar o calor corporal após as atividades físicas.

Pensando na exposição solar intensa, a espanhola Isdin trouxe ao mercado o sérum Eryfotona Night, recomendado para reparar, durante a noite, os danos solares acumulados. Entre os ingredientes está o "DNA Repairsomes", produzido a partir da fermentação de microrganismos Micrococcus, ativo reconhecido por propriedades de regeneração do DNA cutâneo danificado por UV. À venda por aqui, o filtro solar Cica Cooling Sun Stick, da coreana Tocobo, protege enquanto resfria o rosto.

Ah, prepare-se ainda para carregar o seu gadget particular de ventilação. Duas novidades chegaram às prateleiras gringas no último mês: o ventilador HushJet Mini Cool, da Dyson, primeiro portátil da marca nesta frente. O mesmo promete o concorrente da Shark Beauty chamado ChillPill, sistema individual 3 em 1 com ventilador, placa de resfriamento e névoa de toque seco. A promessa é de reduzir a temperatura da pele em até -8,9 °C.

 

 

 

 

 

por - Glamour